segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Os rohingya, Mianmar, a China e o Sudeste Asiático (Parte 1)



As motivações de uma campanha a propósito do “genocídio” dos rohingya

No passado dia25 de Agosto, cerca de 71 pessoas morreram na Birmânia, no sudeste asiático, após um ataque conduzido por 150 homens rohingya . Os rohignya são bengalis, muçulmanos, que no período colonial a Inglaterra deslocou para o estado de Rakhine, na então Birmânia, hoje Mianmar. No ataque, conduzido pelo grupo rebelde, do Exército de Salvação do Rohingya de Arakan, em Rathedaung, no norte do estado de Rakhine, os rebeldes cercaram 30 postos fronteiriços espalhados por 25 localidades. De acordo com a Reuters, entre as vítimas ficaram 59 rebeldes e 12 membros das forças de militares do país. Já em Outubro passado um outro grupo armado com facas e armas de fogo tinha atacado três postos militares perto da fronteira com o Bangladesh. A dura resposta das autoridades do país, em 25 de Agosto, provocou violentos confrontos, que custaram a vida de pelo menos 402 pessoas.


Budistas extremistas reclamam a expulsão dos rihingya

Importa sublinhar o péssimo e intencional comportamento mediático onde se mistura o número de mortos e refugiados desde 25 de Agosto com o ocorrido ao longo de décadas (!) para justificar a tese do genocídio.

Não é a primeira vez que uma etnia da Birmânia (são várias) ou de outros países, com aspirações próprias no quadro dos territórios que os constituem, é usada para a desestabilização interna que altere o quadro político em nome de grandes interesses económicos e geoestratégicos.

Este é o caso do povo rohingya que reside em parte do estado de Rakhine, precisamente onde Mianmar tem no Mar Índico os terminais de petróleo e gás natural, oriundos da China.

Georges Soros há muito que confronta a China (1). Contribuiu para o desenvolvimento de problemas nas suas fronteiras, com vista a enfraquecer este grande país, que tem sido, nos últimos anos um sustentáculo da economia mundial, debilitada pela crise capitalista, e uma esperança para o crescimento e desenvolvimento de muitos países, possível também evitando guerras por outros organizadas, que aproveitam as suas debilidades estruturais. E isso passa por usar os rohingya para desestabilizar Mianmar que tem fronteiras com a China.

Algumas economias globais, imperialistas, já estabelecidas desde há séculos, procuram conter o rápido desenvolvimento económico das nações da ASEAN (2), instigando conflitos internos dentro desse bloco de formações regionais estáveis, para terem uma oportunidade para controlarem estados soberanos e exercerem grande pressão sobre eles.

O objetivo, a médio prazo, é o de, causando-lhes dificuldades de sobrevivência, provocar uma indignação global e inspirar inúmeros "voluntários" muçulmanos (alguns dos quais, sem dúvida, seriam terroristas reais) para inundar o estado de Rakhine e então prepararem o terreno para uma "intervenção humanitária" multilateral, segundo um modelo já testado noutros países, com o objectivo de obter o controlo de um território.

Pensavam liquidar o projecto global “Um cinturão, uma Rota”, versão contemporânea da antiga Rota da Seda, lançada pela China e apoiada e integrada já por muitos países.

 Além disso, outra linha de fractura se daria no quadro do chamado "Choque de Civilizações" (nada mais do que um plano para dividir e governar o hemisfério oriental através da guerra híbrida centrada em diferentes identidades) entre, não só muçulmanos e budistas no Estado de Rakhine, mas possivelmente até eventualmente os budistas e cristãos na parte central de Myanmar e suas periferias do norte-leste, respectivamente. Além disso, poder-se-ia esperar que os "voluntários" budistas e cristãos do exterior também inundassem o campo de batalha, catalisando a própria forma das religiões assumirem o formato do Estado Islâmico.

O actual " Exército de Salvação do Rohingya de Arakan " surge em cena num quadro que o poderia tornar rapidamente no ramo do Estado Islâmico em Mianmar.

Além da remoção geopolítica de Mianmar do mapa do mundo e do sofrimento incalculável de seus mais de 50 milhões de habitantes, a outra vítima seria, naturalmente, a China, que teria que enfrentar uma guerra híbrida parecida com a da Síria ao longo de sua fronteira permeável sul-sudoeste além dos muitos outros desafios de segurança que já se fazem soar na sua periferia (Coreia do Norte, Mar da China Oriental, Mar da China Meridional e Índia). Qualquer plano para um Corredor de Myanmar complementando o Corredor Económico China-Paquistão para o Oceano Índico também seria precipitado, e os agitadores budistas no Tibete também se poderiam radicalizar e nele se inspirar para iniciar um novo ciclo de violência.

A desestabilização de Mianmar pode afectar os projetos de energia da China e criar uma zona de instabilidade à porta de Pequim. Face à confrontação entre os EUA e a Coreia do Norte entre os EUA e a Coreia do Norte, o vizinho chinês pode ficar sob fogos cruzados.

Entretanto, a Task-force da Birmânia, que compreende uma série de organizações financiadas por George Soros, vem operando ativamente em Mianmar desde 2013, convidando a comunidade internacional a parar com o que chamam "o genocídio do grupo minoritário muçulmano Rohingya" (1).

No entanto, a interferência de Soros nos assuntos domésticos de Mianmar já vem de trás. Em 2003, George Soros juntou-se a um grupo da Task Force dos EUA com o objetivo de aumentar a "cooperação dos EUA com outros países para provocar uma transformação política, económica e social, há muito por eles desejada para a Birmânia (Mianmar) ". Na sua visita a Mianmar no final de 2012, Obama iniciou a intervenção directa dos EUA, comportando-se quase como chefe de uma potência ocupante.

Uma nova campanha de informação parcial propagou-se depois de 25 de Agosto nos media à escala universal de um dia para o outro. Tal como aconteceu com o Kosovo e com o genocídio supostamente perpetrado por Milosevic, quando a NATO realizou bombardeamentos em solo europeu, ou com as inventadas atrocidades contra o povo sírio pelo seu presidente Al-Bashar quando a guerra dita “civil” conduzida pela coligação EUA-Inglaterra e França passaram ao ataque com os seus batalhões do Daesh, da Al-Qaeda ou Al-Nusra.

Este conflito começou há cerca de um século e cresceu gradualmente desde 2011, atingindo o seu auge no ano de 2012, quando milhares de famílias muçulmanas procuraram asilo nos campos especiais de refugiados no território do país ou fugiram para o Bangladesh. Em 2016 começou uma nova escalada.

Ao fim de duas semanas de confrontos armados entre o exército birmanês e o grupo rebelde muçulmano, a líder do governo birmanês, prémio Nobel da Paz, e prémio Sakharov, Aung San Suu Kyi quebrou o silêncio para desmentir as acusações de que tem sido alvo, parecendo já não estar nas graças dos seus antigos amigos dos EUA e UE.

A mulher, que durante 15 anos esteve presa pela junta militar que dirigia o país por “defender a democracia”, está agora a ser acusada de esconder as atrocidades que, segundo algumas ONG e as Nações Unidas, estão a ser cometidas no estado de Rakhine, onde vivem milhares de rohingya, minoria étnica muçulmana num país predominantemente budista.

Vários países têm recomendado aos governos de outros países que façam face ao afluxo de refugiados da etnia rohingya e nisso cooperem com o ACNUR, que possui as competências técnicas necessárias para analisar o estatuto de refugiado e dispõe do mandato para proteger os refugiados e os apátridas e têm apelado a esses países a para respeitarem o princípio da não repulsão e a não repelirem os refugiados de etnia rohingya, pelo menos enquanto não tiver sido encontrada uma solução satisfatória e digna para a sua situação, tendo apelado, em particular, ao Bangladesh para que permita a entrada dos refugiados rohingya, reconhecendo paralelamente os esforços já realizados dos pelas autoridades daquele país para acolher várias centenas de milhares de refugiados.
 

O petróleo e o gás natural descobertos, em 2004, no offshore de Mianmar

O conflito com cerca de um século é usado por actores externos para prejudicar a estabilidade do sudeste asiático, especialmente devido ao facto de que o que está em jogo serem vastas reservas de hidrocarbonetos localizadas no offshore do estado de Rakhine, onde residem os rohingya.

O estado de Rakhine na rota dos pipelines de gás e petróleo
e da ligação de Miamar ao mar (na planta o nome inglês da antiga Birmânia) 
A zona costeira de Arakan (Rakhine) quase certamente conterá hidrocarbonetos de petróleo com excelente viabilidade de exploração. Há um enorme campo de gás chamado Than Shwe, nome do general do Partido do Programa Socialista para a Birmânia, que presidiu ao Conselho de Estado para a Paz e o Desenvolvimento entre 1992 e 2011.

Depois da descoberta das enormes reservas de energia de Rakhine em 2004, isso atraiu a atenção da China. Até 2013, a China completou oleodutos de petróleo e de gás natural, que ligam o porto de Kyaukphyu, de Myanmar, com a cidade chinesa de Kunming, na província de Yunan.

O oleoduto permite que Pequim faça chegar o crude ao Médio Oriente e Africa, fazendo um bypass no Estreito de Malaca, enquanto o gasoduto transporta hidrocarbonetos dos campos offshore de Myanmar para a China.

O desenvolvimento do projeto de energia China-Myanmar coincidiu com a intensificação do conflito comos rohingya em 2011-2012, quando 120 mil requerentes de asilo deixaram o país para escapar ao derramamento de sangue.
Os pipelines que ligam a China a Mianmar e à Baía de Bengal
 
Os rohingya

A presença desta etnia na Birmânia (hoje Mianmar) tem origem na migração do subcontinente indiano para Mianmar. Ela ocorre há séculos, em parte associada à disseminação do budismo, hinduísmo e islamismo na região. A região histórica de Bengala (agora Bangladesh) e o estado indiano de Bengala Ocidental têm ligações históricas e culturais com o Estado Rakhine (anteriormente Arakan) de Mianmar, estado que liga o país ao Mar Índico, assumindo grande importância comercial e estratégica.

Mas essa migração foi forçada pela potência colonial – a Inglaterra – que levou ao forçar de uma enorme presença de muçulmanos no estrado de Rakhine.

Os conflitos anuais têm-se repetido ciclicamente ao longo de décadas de tensões budistas-muçulmanas nessas áreas da fronteira birmanesa.

Os massacres de Arakan, em 1942, no decurso da Segunda Guerra Mundial entre recrutas da V Força Rohingya e os Rakhines pró-japoneses, polarizaram os problemas étnicos na região, que tem um mosaico de diferentes etnias, que não existe noutros países da região.

No período colonial britânico, em 1936 e 1939, vários indianos arakaneses, como Gani Markan, foram eleitos para o Conselho Legislativo da Birmânia como nativos da Birmânia britânica. Após a independência da Birmânia, em 1948, os líderes de Rohingya ocuparam altos cargos no governo e no parlamento birmanês. Em 1948, A. Gaffar defendeu o reconhecimento oficial dos Rohingya como um dos grupos étnicos da Birmânia. Uma das duas primeiras mulheres legisladoras da Birmânia, Zura Begum, foi eleita pelos rohingya em 1951.

Durante a 2ª Guerra Mundial, os ingleses, estacionados na Índia, formaram milícias anti japonesas constituídas por bengalis muçulmanos mas alguns soldados britânicos foram forçados a admitir que estes corpos, às vezes, preferiam atacar os aldeões budistas em vez de combaterem os japoneses...Os ingleses não se preocuparam em organizar relações intercomunitárias após o fim do conflito e as raízes do conflito permaneceram. Segundo o “Le Monde” (3) os grupos combatentes rohingya chegaram a conflituar entre si e, enfraquecidos pelas rivalidades internas, nunca conseguiram reunir mais de uma centena de combatentes. Usaram o Bangladesh como rectaguarda de apoio. A Associação de Solidariedade Rohingya, saída dos movimentos islâmicos do Bangladesh, foi uma das mais ativas. Segundo o jornal, o actual Exército de Salvação do Rohingya de Arakan, permanece uma força um tanto nebulosa. Alguns dizem que é teleguiado pelos Rohingya exilados na Arábia Saudita e no Paquistão, mas os seus porta-vozes asseguraram recentemente que a sua luta é desprovida de motivações jihadistas. Há que se estar atento ao que trarão no bojo, digo eu.

Relativamente aos grupos étnicos, logo após a independência, em 1948, parte deles movimentaram-se no sentido de uma maior autonomia face ao estado birmanês, o que conduziu à guerra civil.

 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Bom fim de semana, por Jorge

"The universe is not only stranger than we imagine,
it's stranger than we can imagine."

"O universo não só é mais estranho do que imaginamos,
como é mais estranho do que possamos imaginar."

J. B. S. Haldane (cientista britânico, 1892-1964)

domingo, 3 de setembro de 2017

BRICS: cinco anos depois…


Depois de no ano passado por esta altura os BRICS terem realizado a sua última cimeira em Goa, na India, está neste momento a terminar hoje a 9ª Cimeira, em Xiamen, na província de Fujian, na China.

Embora o tema da 9ª Cúpula BRICS tenha sido "Uma Parceria mais Forte para um Futuro Mais Brilhante", esteve presente alguma tensão entre os participantes.

As rivalidades entre países da Eurásia, como as disputas de fronteiras, não são novas, é claro, mas, mais uma vez, mostraram que os desentendimentos não impedem a cooperação. Além disso, como potencias emergentes que desejam ter uma peso na abordagem dos assuntos globais, e com capacidade alavancagem em pontos críticos de conflito, como o da Península Coreana, os membros do BRICS certamente irão usar esta plataforma para propor um caminho a seguir para quebrar a espiral atual.

Na frente económica, a China e a Índia continuam a ser motores importantes do crescimento da economia mundial, tendo beneficiado de um sistema de comércio aberto ao longo dos anos. Sem dúvida que esta cimeira BRICS irá refletir a unanimidade no compromisso dos membros com um sistema económico global aberto, que, no quadro das relações comerciais comandadas pelo imperialismo, contribuiu para grandes desigualdades mas que os BRICS, se pesarem de outra forma nesses processos poderão fazer um acerto de agulha, vencendo inclusivamente barreiras defensivas por parte dos que perderam protagonismo, usando inclusivamente esse comando que ainda partilham para sabotar economias e decretarem bloqueios com objectivos políticos contra os países que consideram ser o "eixo do mal".

A China, a Índia, o Brasil e a Rússia ratificaram o acordo de facilitação do comércio da Organização Mundial do Comércio (com a África do Sul a preparar-se para o fazer). Isso é importante porque a "conectividade" promovida pela Iniciativa "Cinturão e Rota", proposta pela China, não respeita apenas à construção de portos, estradas e ferrovias, mas também sobre os mecanismos institucionais suaves que ajudem o comércio em todo o mundo.

A Índia não se juntou a essa iniciativa chinesa, e anunciou uma nova iniciativa com o Japão denominada "Corredor de Crescimento Ásia-África" (AAGC), que também procura melhorar a conectividade entre os dois continentes. A AAGC foi, de facto, lançada na reunião anual do Banco Africano de Desenvolvimento na Índia, 10 dias após o Fórum Cinturão e Rota para a Cooperação Internacional realizado em Pequim nos dias 14 e 15 de Maio passado. Tal como aconteceu com a iniciativa União Económica Eurasiática de Moscovo, em que o presidente russo Vladimir Putin em 2015 concordou cooperar com a Iniciativa Cinturão e Rota, a AAGC oferece muitas oportunidades de complementaridade.

O fato de que as três iniciativas são lideradas por membros do BRICS pode ajudar a fortalecer os vínculos práticos entre o agrupamento e outros países - uma forma de "BRICS Plus". No entanto, isso exigiria esforços concertados para colmatar as diferenças e remover as suspeitas mútuas sobre maquinações geopolíticas.

A África do Sul foi o primeiro país nos BRICS a iniciar uma ponte para outros países quando presidiu à cimeira de 2013. Com ele e com as presidências seguintes, foi-se facilitando o envolvimento entre os BRICS e outras economias em desenvolvimento.

Cinco anos depois de criados, os BRICS, esta instância não gerou iniciativas próprias mas tem-se constituído como plataforma para discutir a cooperação a nível bilateral ou multilateral com os resultados já referidos

Os estados africanos reconhecem as oportunidades oferecidas pela AAGC e a Iniciativa Cinturão e Rota para o seu desenvolvimento, embora esta ainda precise de definir o que isso pode significar para todo o continente além da costa leste africana. Os países africanos valorizam as suas parcerias com a Índia e a China e percebe-se que irão trabalhar em complementaridades em vez de rivalidades. Há projetos suficientes para se iniciarem ou continuarem.

Além desses planos, o que é crucial para o desenvolvimento de África numa era de incerteza global é que as maiores potências do mundo em desenvolvimento desempenhem um papel ativo e construtivo na redução de pontos críticos de conflito, enquanto gerem as suas próprias rivalidades regionais.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A bipolaridade no "Publico" e a Festa do Avante!


O Publico nem na véspera nem no dia de início da Festa do Avante! lhe faz qualquer referência. Em contrapartida brinda-nos hoje com uma pérola “Um partido bipolar: uma crítica de esquerda” do sociólogo de Coimbra Elísio Estanque. Um artigo em jeito de “uma no cravo, outra na ferradura”, onde o autor não pode deixar de reconhecer o papel importante do PCP (para a mentira ser segura e atingir profundidade tem que trazer à mistura qualquer coisa de verdade...).

Da biografia do autor, que considera que “o verdadeiro revolucionário do século XXI é o reformismo radical”, retira-se que “foi activista sindical e de diversos movimentos sociais no período revolucionário (1974-1975) ”. Fica-lhe bem mas 43 anos depois, ser de esquerda é uma etiqueta que exige outros créditos que, pelo que temos lido do autor, carecem de incorporação das lições e perspectivas da realidade que não podem passar por identificar o PCP com o “modelo soviético”, um golpe baixo há décadas papagueado por críticos em geral pouco creditados para discutir estas matérias.

Isso e todo o conjunto de perguntas que os militantes do PCP estariam hoje a fazer a propósito da “implosão” do comunismo, como e porque ocorreu, se isso só se deveu a factores internos ou também internos, o que é o comunismo hoje e se se deve pactuar com características negativas de alguns países identificados pelos States como o “eixo do mal”, são questões que há mais de vinte e cinco anos já foram discutidos, com grande abertura e coragem, num discussão de que se tiraram conclusões no XIII Congresso do PCP, em 1990 e seguintes. Há que saber ler e ouvir o PCP…E ó Elísio Estanque, o PCP não defende “um partido único a dirigir o aparelho de Estado”. E essa da bipolaridade…Tenha maneiras!...Daí para o insulto falta muito pouco.

Eu tenho reservas em aspectos da política externa dos governos da Rússia, ou da Coreia do Norte, ou da Venezuela. Mas chegados aqui, atenção! Nos confrontos conduzidos pela administração norte-americana e os dirigentes não eleitos da União Europeia, eu estou do lado dos agredidos, dos que defendem a sua soberania, dos sobre-explorados, dos remetidos por guerras sujas para a fome, a doença e a morte ou para a emigração maciça, dos que sofrem de boicotes e bloqueios. Não hesito, não dou uma no cravo e outra na ferradura para me remeter à não intervenção que sossega as consciências de alguns para golpes, invasões, muita guerra, muita fome e algumas pinochetadas.

Uma coisa é a compreensão do papel da Revolução de Outubro na mudança de paradigmas universais no sentido da centralização do papel do trabalho no processo produtivo com o conjunto de direitos políticos e regalias dos trabalhadores, e do combate à exploração do homem pelo homem que manteve uns como deserdados embora produtores da mais-valia apropriada pelos construtores do sistema capitalista. Sistema capitalista que, foi, entretanto, criando deformações da democracia a coberto de apelos a respostas consumistas, negando na prática o direito de informar e de ser informado, condicionando drasticamente os direitos de eleger e ser eleito. E depois com a financeirização da economia que a alienou para a propriedade das multinacionais e à ditadura dos mercados condicionados, das bolsas e sujeitos ao dólar como moeda única, que agravou desigualdades em cada país, entre países e quis esmagar as riquezas e a humanidade em continentes inteiros.

Outra coisa ainda é ser facilmente verificável, quer à saída das rotativas clandestinas quer nas consultas hoje possíveis na internet, que o PCP mesmos nos duros tempos da clandestinidade, elaborou e aperfeiçoou também já no regime democrático saído da Revolução de Abril, as características que a democracia a conquistar na revolução portuguesa deveria ter. E, entre elas, estão as vertentes não apenas políticas mas também económicas, sociais e culturais dessa democracia. E que nos direitos políticos se encontravam entre outros, a existência de diferentes partidos políticos, a liberdade de imprensa. Vivi intensamente esses processos de discussão mesmo com os que tinham ideias muito diferentes das minhas. Os anos de 1969 a 1975, pela riqueza da experiência pré e revolucionária foram muito importantes para formação de centenas de milhares de cidadãos.

Neste estado das coisas sugiro ao autor uma leitura, que não seja en passant , do “Rumo à Vitória” ou do actual “Programa do PCP, Uma Democracia Avançada - Os Valores de Abril no Futuro de Portugal”. E que recorde que, quer nas conclusões do III Congresso da Oposição Democrática, em Abril de 1973, quer nos documentos programáticos do “movimento dos capitães” de 1974, essas diferentes vertentes da democracia já estão expressas devido a anos e anos de reflexões sobre a luta da resistência e as características do fascismo em diversos planos, dentro e fora do PCP.

Por outro lado, há que não esquecer que o PCP não “se conformou”, como alguns que nada fizeram pela democracia costumam brincar, como o autor insinua em jeito de “puxão de orelhas”, com a democracia, pela razão evidente para qualquer docente que investigue como faz qualquer estudante, que a matriz essencial que o PCP dela concebeu ficou expressa na Constituição da República Portuguesa, apesar das suas sucessivas revisões.

Na convivência nesta esquerda plural e alargada, ninguém em jeito de “crítica de esquerda” (qual?) pode intentar que uma força política como o PCP faça o que o autor entende, deixar de ser o que é.

 

sábado, 26 de agosto de 2017

“Exodus”, (a propósito do reenvio de um e-mail que me fizeram)


Trata-se de um animação satírica e inteligente, a partir de uma realidade trágica, feita pela cartoonista norte-americana Nina Paley, que mostra o conflito histórico pelo domínio da região também conhecida por Terra Santa. A animação “This Land is Mine” (“A Terra é Minha”) ilustra a matança dos povos habitantes daquela região, com a banda sonora criada por Ernest Gold e Pat Boone, todos eles, e também Leon Uris, activistas do sionismo que se implantou em Israel.


“This Land is Mine” é uma sátira à “The Exodus Song”. Esta música funcionou como um espécie de banda sonora do sionismo americano na década de 1960 e 70.
 

O “Exodus” foi um dos navios que procederam ao transporte de imigrantes ilegais, de países onde tinham sido vítimas dos crimes horríveis dos nazis, para a Palestina, no período que precedeu a fundação do Estado de Israel. O navio foi comprado pela Agência Judaica em 1947. Este e outros navios, depois de chegarem à costa da Palestina, foram mandados para trás pelos colonizadores ingleses. A população da Palestina reagiu a esta imigração maciça mas foi vítima de agressões, assassinatos e emigração para outros territórios.

Em 1958, Leon Uris escreveu um livro, Exodus, inspirado na história do navio, onde retrata o Holocausto, a imigração para a então Palestina e a criação do Estado de Israel. No livro, porém, a história do navio tem um final mais feliz: os judeus refugiados não regressam à Europa e conseguem, através de uma greve de fome, dobrar as autoridades britânicas e descer na Terra de Israel (a Palestina). Em 1960, com o mesmo título, Otto Preminger fez um filme baseado na obra de Leon Uris, e tendo como principal intérprete Paul Newman.

O tom épico de coragem, que encerravam, prendeu-me a eles, nos meus catorze anos, quando ainda não tinha condições para conhecer a outra parte da história. Só com a luta do povo palestiniano contra as ocupações e massacres perpetrados por Israel, conheci esse outro lado da narrativa.

O livro e o filme que adoptaram o nome do navio constituíram actos de propaganda maciça, essencial para que nos EUA e Europa, nomeadamente, depois do fim da 2ª Guerra, se criasse uma opinião pública favorável à instalação do estado de Israel e à remoção forçada dos habitantes da Palestina. As organizações militares hebraicas Haganah, Mossad e Irgum sustentaram esta operação para mostrarem ao mundo a necessidade de um Estado Judeu - uma pátria soberana e independente, lar incontestável de todos os judeus. Minaram também as possibilidades de fazer regressar aos países de origem, nomeadamente àqueles que tinham sido libertados dos nazis, de muitos judeus que passaram grandes privações nestas viagens de marítimas, sempre sem porto seguro e sujeitas a regressos à Europa.

Diante do agravamento da situação, os ingleses passaram o problema para a recém-criada Organização das Nações Unidas (ONU), que criou o Comitê Especial para Palestina (UNSCOP) a fim de tratar da decisão pela partilha territorial. O eleito para a Assembleia Geral de 1948, que ficou encarregado de gerir essa questão, foi um brasileiro que havia sido ministro de Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha. Aranha propôs a criação do Estado judaico e desencadeou uma votação de delegados das nações então constituídas. Todos os países árabes votaram contra a criação de Israel e a divisão do território. Alguns países ocidentais, como a Inglaterra, não votaram, mas a maioria votou a favor. O Estado de Israel foi então declarado oficialmente existente.
O líder judeu que encabeçou todo o processo era ainda Ben-Gurion. Foi ele que, inclusivamente, assinou a declaração de Independência de Israel no Museu Nacional de Tel- Aviv, e, depois, foi eleito o primeiro-ministro da república de base parlamentar de Israel.

No mesmo ano em que foi reconhecido como Estado oficialmente existente, Israel teve de lidar, como era natural, com a primeira de muitas guerras que viria a enfrentar contra os Estados Árabes, que, por muito tempo não reconheceram o direito de Israel de existir, só o vindo a fazer pela força das armas e pela pressão de Washington.

Um outro tema me prendeu e ainda hoje continuo a saber a letra de cor e a poder cantá-lo, coisa de deixei de querer com o acentuar do carácter fascista dos sucessivos governos israelitas, foi o “Exodus Song”, que foi buscar o nome “This Land Is Mine”, de forma oportunista, este de facto um bom filme de Jean Renoir, de 1943, que tem a ver com a resistência ao nazismo em França nos meados da guerra, e a terra que é “minha” é a França e não a “Terra Prometida”, invocada pelos criadores do estado judaico. E que teve música de C. Bakaleinikoff e Lothar Perl.
 
The Exodus song” (This Land is mine) foi composta por Ernest Gold e interpretada originalmente por Pat Boone e é a música principal da banda sonora do filme. Fica o trailer
Trailer  do

 

Segue-se a tradução muito pessoal

Esta terra é minha
Deus deu-me esta terra
Esta terra valente e antiga
Deu-ma a mim

 
E quando o sol da manhã
Revela seus morros e planícies
Então vejo uma terra
Onde as crianças podem correr livremente

 
Pega então na minha mão
E percorre esta terra comigo
Esta terra encantadora
Comigo

 
Embora seja apenas um homem
Quando estás ao meu lado,
Com a ajuda de Deus,
Eu sei que posso ser forte (bis)

 
Para que esta terra se torne na nossa casa
Se eu tiver que lutar, vou lutar
Para fazer dela a nossa terra.
Até eu morrer, esta terra é minha

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Bom fim de semana, por Jorge

"Neither beliefs nor morals should be based
on gut feelings, or on ancient books,
private revelations or priestly traditions."

"Nem as convicções, nem os costumes deviam estar baseados

na intuição, em livros antigos,
em revelações pessoais ou nas tradições religiosas."

Richard Dawkins

biólogo inglês,
n.1941

A transparências das eleições em Angola e os resultados parciais contados até há dois dias

Numa declaração conjunta apresentada à imprensa os antigos presidentes Pedro Pires, de Cabo Verde, Joaquim Chissano, de Moçambique, Manuel Pinto da Costa, de S.Tomé e Príncipe e José Ramos Horta, de Timor-Leste, convidados a supervisionar as eleições em Angola na qualidade de observadores internacionais, consideraram "pacíficas, livres, justas e transparentes" as eleições.
Os antigos líderes observaram as diferentes assembleias de voto na capital do país, tendo testemunhado ...a abertura e o fecho das urnas, o processo de votação, a contagem dos votos, incluindo o apuramento dos resultados em alguns locais de votação. Também constataram que as eleições decorreram de forma ordeira e pacífica, sem incidentes ou irregularidades de realce.
“Constatamos com satisfação uma taxa de participação acima da média e a existência de muito poucos votos nulos e em branco, fruto de uma campanha de educação cívica bem sucedida”, disse Pedro Pires, que leu a declaração conjunta.




No dia anterior a esta declaração foi feita divulgação dos resultados parciais das eleições angolanas quer de origem nos delegados do MPLA às mesas de voto quer de origem na CNE pela recepção dos resultados das próprias mesas de voto, poderiam ter sido completadas pelos dados que se esperaria poderem ser enviados aos restantes partidos pelos respecivos delegados às mesas de voto.
Não o fizeram por incompetência? Ou porque os resultados a divulgar seria divulgarem a sua própria derrota?
Compreendo que quer a CNE quer...
o MPLA tenham divulgado os resultados, recolhidos por vias não coincidentes, porque um período longo de espera poderia aproveitar aos pescadores de águas turvas para procederem a alguma desestabilização.
A Comissão Nacional Eleitoral (CNE), divulgou os primeiros resultados provisórios saído das eleições gerais para um total de 5.938,853 votos. Cada formação política, teve o seguinte resultado à nível nacional: MPLA-64,57%, UNITA-24,4%, CASA-CE-8,86%, PRS-1,37%, FNLA-0,95%, APN-0,52%.
Relativamente à sondagem do Instituto Piaget/Universidade Católica, estes resultados revelam que o MPLA poderá ter subido em relação a ela, que a UNITA poderá ter subido bastante, que a CASE-CE poderá ter diminuido bastante (mas ambos somados com resultado ligeiramente inferior ao da sondagem) e que poderá ter falhado atentativa de fazer do CASE um caso resultante do fluxo das redes sociais e dos jovens que votaram pela primeira vez.
 


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Eleições em Angola


Hoje é o último dia da campanha eleitoral em Angola.

De acordo com as últimas sondagem conhecidas, João Lourenço será o próximo Presidente de Angola e na Assembleia Nacional o MPLA manterá a maioria dos deputados, como em 2012.

Poderão ter mais de 60% dos votos (em 2012, 71,84%). Em 2012 o MPLA atingiu uma maioria absoluta de 175 deputados, enquanto a oposição ficou pelos 45.

Ao contrário de França, por exemplo, que tem um outro tipo de presidencialismo que garante automaticamente ao presidente eleito uma maioria confortável de deputados, em Angola isso não acontece.

A CASA-CE (Convergência Ampla de Salvação de Angola-Coligação Eleitoral), de Abel Chivukuvuku, poderia ser a segunda força mais votada, com cerca de 19% das intenções de voto (em 2012, 6%), embora a diferença em relação à UNITA, que ficaria com 15% (em 2012, 18,66 %) se situar na margem de erro da sondagem. “Mas, ainda assim, existe a possibilidade de a CASA-CE se tornar na segunda força com mais assentos no Parlamento", estima Carlos Pacatolo.

A União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) criticou a sondagem. O candidato, Isaías Samakuva, considera que a amostra "não permite um apuramento sério da intenção de voto dos angolanos".

Nestas eleições concorre mais um partido, o APN.  Mas estas três candidaturas continuariam a ter reduzida expressão eleitoral, a saber Quintino Moreira e o APN, Lucas Benghi Ngonda e a FNLA e Benedito Daniel e o PRS. Mas elegerão deputados, como em 2012.

Para as eleições da próxima quarta-feira, a CNE constituiu 12.512 assembleias de voto, que incluem 25.873 mesas de voto, algumas a serem instaladas em escolas e em tendas por todo o país, com o escrutínio centralizado nas capitais de província e em Luanda. Estão inscritos 9.317.294 eleitores em todo o país. A província de Luanda, a maior eleitoralmente, apresenta 2.882.632 eleitores.

Os delegados às mesas de voto terão um subsídio do Estado para o efeito.

Segundo a CNE, estavam credenciados no passado dia 17, 1.200 observadores nacionais e 200 observadores internacionais. Estando, assim cobertos um número significativo de mesas de voto para esse efeito.
 

 A UE, ao contrário do que nestas situações acontece noutros países, queria ter observadores seus em Angola mesmo antes do início da campanha eleitoral, o que violaria a lei eleitoral. Os eurodeputados não poderão estar presentes e a UE terá apenas quatro “peritos” eleitorais. Andou aqui a mãozinha de Ana Gomes? Os peritos reuniram com a FNLA, “A FNLA esclareceu as inquietações que os peritos apresentaram em relação ao andamento do processo eleitoral que decorre no país”, disse à imprensa o secretário-geral do partido, Pedro Dala. Para a CASA, o seu presidente Abel Chivukuvuku , tinha declarado há dias aceitar o resultado das eleições e, depois da reunião com os peritos da EU, Dala referiu que o processo eleitoral caminha dentro da normalidade, apesar de um ou outro constrangimento.
 

As sondagens

Na sondagem acima referida, João Lourenço poderia tornar-se no próximo Presidente de Angola se se confirmar a maioria absoluta, que deverá superar os 60%, segundo o inquérito político-social do Instituto Superior Politécnico Jean Piaget de Benguela, em parceria com o Instituto Superior Politécnico Sol Nascente do Huambo e o apoio da Universidade Católica Portuguesa.

Apesar de prever mais uma vitória do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), Carlos Pacatolo, coordenador da sondagem, aponta para uma possível mudança no cenário político no país, devida à passagem da CASE-CE a segundo partido mais votado com 19%, enquanto a UNITA poderia ficar nos 15%.

Nesta sondagem, 30% dos eleitores desconfia da credibilidade da eleição (em número que porém se situa abaixo da soma das expectativas eleitorais dos vários partidos de oposição).

Uma outra pesquisa, realizada entre os dias 8 e 12 deste mês em todo o país pelo Consórcio angolano Marketpoll Consulting e pela brasileira Sensus Pesquisa e Consultoria, dá a vitória ao MPLA e ao seu candidato, João Lourenço, com 68% dos votos.

E há mais de uma semana a esquerda.net divulgou em Portugal outra “sondagem” em que MPLA ficava atrás da Oposição, com apenas 38% dos votos, baseado num artigo de 10 de Agosto, no Maka Angola, de Rafael Marques de Morais. Este personagem, também grato ao lobby anti angolano em Portugal, apresenta-se como investigador no National Endowment for Democracy (NED), um dos dois organismos da administração norte-americana que canaliza financiamentos para ONGs que procuram desestabilizar regimes da sua lista negra. E Angola é um deles.

E atribuía a “sondagem” ao consórcio Marketpoll Consulting e a Sensus Pesquisa e Consultoria, já atrás referido. Só que estas empresas desmentiram essa suposta sondagem eleitoral, que, de acordo com as consultoras, nunca foi realizada, sendo todos os dados contidos na matéria” falsos e irresponsavelmente difundidos”.

Num comunicado, as duas empresas afirmaram que “a matéria veiculada pelo “Maka Angola” socorre-se de uma fonte não credível, sendo completamente falsa e passível de responsabilização judicial, nos termos da lei angolana e no quadro internacional dos crimes cibernéticos.”

Nem esquerda.net nem Rafael Marques de Morais sentiram necessidade de corrigir a mentira.


Tempos de antena e campanha eleitoral

Cada concorrente às eleições gerais teve cinco minutos de antena na televisão e dez minutos na rádio, a partir das 20 horas do primeiro dia da campanha eleitoral.

As formações políticas concorrentes às eleições gerais deste ano utilizaram de forma diferente os tempos de antena na Rádio Nacional de Angola (RNA) e na Televisão Pública de Angola (TPA), com promessas e aspectos programáticos, sendo os dos partidos da oposição frequentemente irrealizáveis e muito críticos em relação ao governo nos atrasos de políticas sociais. Em dois casos avançam com propostas que não podem ser contempladas no quadro constitucional como o federalismo ou a separação das eleições presidenciais das legislativas

Os incidentes foram muito poucos.

Quanto às declarações das candidaturas, João Lourenço afirmou que o MPLA vai “promover e estimular a competência, a honestidade e entrega ao trabalho e desencorajar o ‘amiguismo’ e compadrio no trabalho”. “O MPLA reafirma neste programa de governação o seu compromisso na luta contra a corrupção, contra a má gestão do erário público e o tráfico de influências”, referiu o dirigente, acrescentando que o partido conta com “os angolanos empenhados na concretização do sonho da construção de um futuro melhor para todos”. “Vamos contar com aqueles que estão verdadeiramente dispostos a ‘Melhorar o que está bem e a corrigir o que está mal'”, numa referência ao lema da campanha do partido às eleições gerais de 23 de agosto deste ano. Estas declarações são promissoras para que possa cessar a corrupção e amiguismo em altos cargos do país. Como positivo foi o seu apelo para que o dinheiro em contas de cidadãos angolanos noutros países regresse ao país e possa ser aplicado em investimentos de que ele carece.

Mas as intenções confrontam-se com as realidades. Como combater a corrupção num país que importa muito (hoje menos devido à falta de divisas), em que essa actividade, que pode gerar luvas muito altas, se junta a que o estado e particulares entram em regimes de contratação de obras públicas e prestação de serviços que facilitam a corrupção? E os ricos, que depositaram noutros países o dinheiro que obtiveram, muitas vezes em esquemas fraudulentos, e que se traduziram também na fuga ao fisco, em que condições aceitariam o regresso a casa dessas fortunas elevadíssimas?

Mas quem são os que em Portugal ou nos EUA atiram a primeira pedra? Os que aqui e lá estão mergulhados até ao pescoço em processos semelhantes? E que autoridades têm estes para intervir em assuntos internos de Angola e condicionarem a soberania do país que cabe apenas aos angolanos? Ou é ainda a mentalidade colonial a pairar nessas cabeças.

As outras cinco candidaturas apresentaram algumas propostas interessantes, mas mais frequentemente avançaram com objectivos irrealistas e demagógicos, atendendo à conjuntura angolana. Noutros casos avançaram com objectivos que violam a constituição, como o federalismo e a realização das eleições presidenciais e legislativas em momentos distintos. Mas tudo isso avançado, naturalmente, no quadro destas eleições realizadas em democracia.

Em tudo o que lemos, ouvimos e vimos nos meios de comunicação social mais afectos ao governo ou à oposição, não se podem extrair conclusões que afectem a democraticidade da campanha.

Contrastando com o ambiente relativamente calmo da campanha eleitoral, a três dias das eleições, as formações políticas da oposição, com excepção da APN, ameaçaram desencadear uma série de medidas, entre elas a realização de manifestações, caso não sejam resolvidas algumas questões que consideram essenciais para a lisura e transparência do processo eleitoral. Fizeram-no em conferência de imprensa, dirigida por Adalberto Costa Júnior, em representação do presidente da UNITA, e em que não estiveram representantes destacados dos partidos que a convocaram.

O que entra em contradição com as declarações do presidente da CASA-CE e do secretário-geral da FNLA, atrás referidas.

Os partidos acordaram antes com a CNE que cada formação política credenciasse 200 mil delegados, mas, a três dias da data das eleições, ainda se estará muito aquém de se atingir esta meta. Para estes partidos, devem ser eles próprios a completar a credenciação. Face a deslocações de tropas de uns para outros pontos do país, interpretam isso como o MPLA estar a querer prevenir resultados eleitorais menos favoráveis nesses locais.

Também a transferência de eleitores de assembleias de voto próximas das suas áreas de residência para outras zonas. A CNE angolana nega intenção de prejudicar os eleitores. (1)

Já em Junho passado, a UNITA tinha convocado manifestações contra a escolha, por concurso, das empresas Sinfic e Indra, para a elaboração dos cadernos eleitorais, a credenciação os agentes eleitorais bem como garantir os materiais de votação e as soluções tecnológicas.


A última legislatura

Durante a legislatura que terminou na passada 3ª feira, consolidou-se o papel da Assembleia Nacional na produção legislativa relevante e no sistema de poderes definido constitucionalmente. Foram aprovados 21 diplomas, nomeadamente a Lei de Bases do Sistema de Educação e Ensino, a Lei da Divisão Político-Administrativa e a aprovação da Lei das Autarquias, suporte da actividade a ser desenvolvida no país até à instauração das autarquias locais importante primeiro passo para a sua criação. Foram ainda aprovadas a Lei que aprova o Orçamento Geral do Estado, a Lei que aprova o Regime Jurídico das Contrapartidas, a Lei de Imprensa, a Lei da Entidade Reguladora da Comunicação Social e outra sobre o Exercício da Actividade da Radiodifusão, assim como a Lei do Estatuto do Jornalista, a Lei de Protecção das Redes e Sistemas Informáticos, a Lei Geral da Publicidade, a Lei das Micro, Pequenas e Médias Empresas.

Por iniciativa parlamentar, nomeadamente no âmbito de comissões, aprovou-se legislação relativa ao controlo e fiscalização das acções do Executivo, ao nível de relações internacionais e a questões de organização das próprias comissões.

Os debates parlamentares foram vivos.


 Os marginais

Depois da morte de Jonas Savimbi, em 2012, a aposta de quem queria reverter a situação de Angola, no desrespeito pela Constituição, viria a recair no grupo de Luatyr Beirão, que acabou em liberdade, depois das acusações que lhe foram imputadas em 2015, tornando-se no “must” que beneficia mais dos apoios do lobbie anti angolano em Portugal, que funciona desde a declaração da independência em 1975. Projecção mediática, viagens e outros apoios não lhes faltam.

O Expresso do passado dia 12 não se limitou a tentar fazer passar a ideia do sociólogo Álvaro Pereira que antevê a vitória do MPLA, mas que admite que uma nova forma de governo pode surgir em Angola com um Presidente minoritário?

Fez uma longa entrevista a Luatyr na Revista da mesma edição, com a capa integralmente coberta com a figura de Luaty Beirão, e mais 9 páginas, sendo quatro delas para outros tantos "bonecos" dele também em página inteira.

Luatyr não vota “porque não vale a pena, porque João Lourenço e o MPLA já ganharam”...Da entrevista ressaltam outras considerações repetitivas sobre a situação em Angola. Mas o jornalista da Impresa que o entrevista centra o interesse editorial sobre uma nova coligação de partidos que poderia ser dirigida por ele próprio ou em parceria com Rafael Marques. A Impresa - refira-se a propósito -, tem pendente a autorização do governo angolano sobre a pretensão da SIC em instalar vários canais de TV em Angola.

E o esquerda.net não dá apenas o espaço que referimos em baixo a Sedrick de Carvalho. Vai trazê-lo cá no dia 26 para uma conferência. Está-se mesmo a ver para quê…Nem outros apoios se ficam pelos da “Tinta-da-china”.

Alguns dos elementos deste grupo manifestam algumas simpatias pela CASE-CE, de Abel Chivukuvuku, segundo sucedâneo de Savimbi, que poderia vir a sofrer alterações internas. Mas, para já, agora afastam-se do acto eleitoral para “não pactuarem” com o regime que vem aperfeiçoando o seu carácter democrático.

O tom das suas declarações é típico de outsiders que esperam uma oportunidade que os tire do isolamento em que ficaram depois da sua libertação. E querem aproveitar a crise social que possa resultar da deterioração da economia angolana. Lá voltará, então, o estudo dos ensinamentos do livrinho de Gene Sharp, adaptado à realidade por Domingos da Cruz, outro dos 15 detidos em Angola em 2015, e que, entretanto Bárbara Bulhosa, da Tinta-da-China, editou em português.

São de registar algumas afirmações de Sedrick e Luaty:

“O presidente da República, enquanto instituição, é o principal promotor da violência no país, e recompensa quem assim procede. Da morte de Jonas Savimbi às actuais mortes e detenções, a mão institucional está presente.” (…)

“Não há guerra em Angola, mas também não há paz!”

(Sedrick de Carvalho, esquerda.net 15/08/17)

“[João Lourenço] já ganhou. Já cozinhou isso. (…) com tudo o que se passou já não é uma vitória justa, já se condicionou o voto das pessoas.” (…)

“[Sobre as eleições a 23]: Não vou meter-me no mesmo carro, com os mesmos assaltantes, com o mesmo valor no bolso, para ser roubado de novo” (…)

“Não vou diminuir-me à condição de pateta alegre que se entrega às mãos dos bandidos a cada cinco anos. Alguns de nós tentámos aproximar-nos dos partidos da oposição para criar esse novo elemento e dar um sinal forte à sociedade.” (…).

(Luaty Beirão na entrevista ao Expresso já referida)

E, já agora, de Rafael Marques de Morais

 “Angola é dotada de imensuráveis riquezas naturais e tem registado na última década um impressionante crescimento económico, sem impacto positivo no quotidiano da maioria dos angolanos, que continuam a viver na miséria.”

Os operacionais do lobby que já tanto mal fez às relações luso-angolanas, continuarão a levá-los ao colo. Provocam mossa às relações do nosso país com Angola mas, para já, estão limitados pela continuidade das relações económicas, culturais e políticas entre os dois países.
 

Evolução da economia

O Produto Interno Bruto (PIB) per-capita em Angola assumiu em 2016 o valor de 3.654,73 dólares de acordo com dados oficiais (inferior seis veze sem relação ao português).

Está em curso, entretanto, a instalação de novas estruturas que potenciarão o crescimento.

O país combateu os resultados da crise financeira internacional de 2012, com efeitos a partir de 2014, e mais recentemente os riscos da quebra dos preços de venda do petróleo nos mercados internacionais, que reduziram o peso das suas receitas no PIB. Considerando os dados do produto em sectores agregados, conclui-se que o maior peso no PIB corresponde ao sector não petrolífero, com 80,4%, representando o sector petrolífero, apenas 19,6% do PIB. Face à queda o preço do petróleo, o programa de governo teve que ser alterado para redefinir as despesas públicas para que fosse possível assegurar a sustentabilidade da agenda de desenvolvimento.

O aumento do peso no PIB do petróleo aumentou até 2008, chegando então aos 57,9%, de acordo com dados do Ministério do Planeamento. As autoridades angolanas têm realizado políticas que têm atribuído cada vez maior peso ao sector não petrolífero da economia mas não compensando o crescimento perdido da economia

Hoje é o sector dos serviços que aparece em primeiro lugar, com cerca de um terço do PIB. Temos depois o sector dos petróleos, a agricultura, a construção e a indústria transformadora.

Mas, em resultado da crise, a construção está em queda desde 2014 com muitos despedimentos e a indústria transformadora só em pequena parte resolve o abastecimento dos consumíveis à actividade industrial.Com peso menor estão os sectores dos diamantes, das pescas e da energia.

No período 2008-2016, o PIB não petrolífero cresceu a um ritmo médio de 8,4% ao ano. Já desde três anos antes da legislatura que agora chegou ao fim, o produto interno bruto esteva a subir até ao ano de 2013. Mas a partir de 2014, devido à crise, esse crescimento abrandou, situando-se em valores cada vez mais baixos e atingindo 0,1% em 2016.

O crescimento em relação à indústria transformadora é ainda tímido, enquanto se regista uma relativa manutenção da importância do sector agrícola no cômputo geral do PIB, com altos e baixos nos últimos dez anos.

Apesar de Angola não ter tido em 2016 crescimento negativo em dois trimestres consecutivos, para se poder falar em recessão, com crescimentos tão baixos o seu risco é real e vão ser necessários grandes esforços para a evitar.

A recessão tem normalmente um efeito dominó, que resulta da falta de confiança dos agentes económicos na economia, bem como da diminuição da disponibilidade de crédito e da consequente diminuição do consumo a que se seguem a diminuição da produção, o desemprego e a consequente diminuição do consumo.

José Eduardo dos Santos no seu último discurso como Chefe do Governo salientou que “Foi importante termos encarado a crise económica e financeira como uma oportunidade para nos libertarmos da dependência excessiva desse produto [o petróleo] e para acelerarmos o processo de diversificação da economia, através do aumento da produção interna, da redução das importações, do fortalecimento do tecido empresarial nacional, da promoção e criação de emprego e da diversificação das fontes de receitas fiscais e de divisas”. Mas, para sermos objectivos, digo eu, a diversificação da actividade económica não se resolveu. A queda do preço do petróleo continua e, a não ser contida, agravará a situação da economia.

Para o futuro, será, certamente, necessário apostar de forma mais incisiva na agricultura e na indústria, baixando a importância relativa dos serviços e do sector petrolífero e na criação de emprego, procurando particularmente ir ao encontro dos jovens, nas suas necessidade objectivas para singrarem na vida, tornando-os também menos permeáveis a manobras desestabilizadoras que visam, em última análise, criar condições de entrega da exploração das riquezas e do trabalho angolanos em condições que afectem mais a soberania e os direitos os trabalhadores.



José Eduardo dos Santos

Para compreender o drama de Angola, importa ter em conta que, para além dos onze anos de luta pela libertação do domínio colonial português e de num ano e meio, depois do 25 de Abril em Portugal, ter acedido à independência, em 11 de Novembro de 1975, Angola foi vítima de uma guerra civil desde esse dia até ao ano de 2002, depois da morte de Savimbi. Foram anos e anos a construir para depois reconstruir o que tinha sido destruído, e a viver com a morte sempre à porta. Foram 27 os anos da guerra e 15 os de paz.

Depois da morte de Agostinho Neto, em 1979, José Eduardo dos Santos assumiu a presidência até 2012, com a guerra civil imposta particularmente pela UNITA, os EUA e um lobby anti-angolano em Lisboa. Só a partir de 2002 um país com imensas perdas de vidas humanas e destruição de famílias (500 mil mortos e 4,3 milhões de deslocados) e destruição das suas infraestruturas pôde começar, em paz, a sua reconstrução. E ainda assim comos efeitos da crise financeira internacional e a queda drástica dos preços do petróleo.

José Eduardo dos Santos foi eleito Presidente da República nesse ano, como cabeça de lista do MPLA nas eleições gerais, as primeiras num novo quadro constitucional inaugurado em Fevereiro de 2010.

Durante este período, José Eduardo dos Santos afirmou-se como um grande dirigente nacional de projecção universal.

Deixou a todos os angolanos a paz, a reconciliação nacional, a estabilidade política e social, o normal funcionamento das instituições do Estado, a unidade e integridade do território nacional, a recuperação da economia e o desenvolvimento do país.

Apesar das enormes desigualdades que continuam a existir no rendimento e condições de vida dos cidadãos e do alastramento da corrupção às camadas dirigentes, estamos certos que o MPLA ganhará as eleições de 4ª feira e conseguirá vencer os problemas de que padece. Estamos com ele e com João Lourenço.
 
(1)  http://observador.pt/2017/08/19/cne-de-angola-desvaloriza-casos-de-eleitores-colocados-a-votar-a-mil-quilometros-de-casa/