segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Dia após dia novas razões para a saída do euro


Se um dos argumentos para a adesão à CEE foi diminuir a inflação que em Portugal se tinha passado a situar nos dois dígitos, é agora a inflação na Alemanha num dígito apenas que tornará mais problemático o crescimento em Portugal por via do financiamento muito mais caro da economia com negativas repercussões na economia, no emprego e nas funções sociais do estado.



Há um mês, Mario Draghi tinha anunciado que em 2017, último ano de compra da dívida pública pelo BCE esta seria ainda reduzida em 25% a partir de Abril.

E agora, o espectro de uma subida das taxas de juro da dívida pública a dez anos no nosso país para mais de 4% (Cavaco Silva admite mais) em consequência da subida da inflação na Alemanha de 0.7% para 1,7% (para já, porque irá subir ainda por efeito dos aumentos dos preços da energia nos de outros bens e serviços) é o que temos no horizonte. Ferro Rodrigues referiu que as dificuldades começaram “já com esta situação em que a vulnerabilidade de Portugal, do seu sistema financeiro, da economia e da situação do país está bem à vista na subida das taxas de juro — para as quais nada contribuímos”.

Foi a segunda vez que os juros de Portugal superaram os 4% desde que começou o programa de compra de dívidas (março de 2015).
António Costa pretendeu meter água na fervura, dizendo que esta subida é geral, que o governo acompanha a situação e que os mercados irão progressivamente “percecionando a realidade da economia portuguesa, designadamente no que respeita à execução orçamental, à redução da dívida líquida e ao facto de termos um dos maiores saldos primários da União Europeia”.

Se isso é assim, mais uma razão para que governo e BCE evitem tais consequências para Portugal.

Porém, Edgar Caetano, responsável pela análise de mercados de dívida do holandês Rabobank, e outro quadro dirigente deste banco, em Londres, disseram ao Observador – todos, é claro, a deitar achas para a fogueira da fuga dos investimentos - no passado sábado que: “ Portugal está vulnerável quanto aos riscos "sistémicos" que assolam a Europa. E que “as taxas de juro de Portugal no mercado superaram esta semana os 4% no prazo a 10 anos. É o valor mais elevado desde os dias tensos de Fevereiro do ano passado, quando o governo discutia os planos orçamentais com Bruxelas, e contrasta com os juros abaixo de 2% de Espanha e Itália”. E ainda que “há uma perceção de risco latente que pode levar a que os investidores cada vez mais considerem a dívida portuguesa demasiado arriscada, independentemente da rendibilidade generosa”.

Não dramatizar, porquê? Porque o BCE vai proteger Portugal, que foi o que mais sofreu com a imediata especulação nos mercados? Em rigor não há indicações de que tal intervenção venha a acontecer, devendo acentuar-se a tendência contrária quer no que respeita ao valor da taxa de juro quer no que respeita às reduções de aquisição da dívida pública por parte do BCE.

É ou não verdade que a perspectiva da “estagflação” que se registou nos anos 70, na sequência do primeiro “choque petrolífero”, está a ser considerada por alguns economistas? É verdade, mas não se pode concluir que isso virá acontecer. Então o mundo capitalista defrontava uma situação, aparentemente anormal, na Economia keinesiana, que foi a estagnação no crescimento coincidir com a subida dos preços, de forma continuada. Nessa altura os governos e os bancos elevaram as taxas directoras de uma forma muito rápida e intensamente para evitar possíveis regressos de aumentos de preços, mas penalizando a economia. Em 1994, a Reserva Federal dos EUA provocou assim um craque mundial. Por outro lado, negligenciaram outra forma de inflação, já não não sobre os preços dos produtos, de certos activos financeiros, tais como imobiliário. A incompletude da união monetária promoveu, assim, a formação de uma enorme bolha imobiliária em Espanha no ano 2000. Oito anos depois a explosão registou-se de forma violenta, como todos estamos lembrados.

Ainda assim, as instituições monetárias superaram a inflação. E, após a crise de 2008, é o oposto que se veio a verificar com os preços se mantiveram baixos, o que os tem preocupado até hoje. Por enquanto, o aumento dos preços das matérias-primas e a eleição do novo presidente norte-americano Donald Trump permitem prever um aumento da inflação. Enquanto, ao mesmo tempo, o crescimento global continua a ser modesto. O retorno da estagflação ainda é perspectiva exagerada mas era um cenário de pesadelo para os bancos.

Mas, antes de voltar à questão das taxas de juros, importa referir o gangsterismo anunciado na passada semana pela Comissão Europeia de três grandes bancos “de referência” – o Deutsche Bank, o RBS e o Societé Générale - terem manipulado o índice Euribor que é a taxa de juro interbancária que serve de referência a grande parte dos contratos financeiros firmados na Europa.

Segundo o Jornal de Negócios deste domingo, “os três bancos fazem parte de um grupo de sete [os restantes gangsters foram o JP Morgan, o Crédit Suisse, o HSBC e o Barclays] que terão actuado em conluio entre Setembro de 2005 e Maio de 2008 para manipular elementos definidores do custo de derivados sobre a taxa de juro do euro, e trocado informação relevante, no que constitui uma violação das regras europeias de concorrência, avançou a Comissão Europeia, numa mensagem por e-mail”. Segundo o jornal, os três bancos deram-se como culpados em Dezembro de 2013, pagando em conjunto 820 milhões de euros. O Barclays evitou a multa por ter avisado a Comissão.

O índice Euribor, alvo da manipulação que se estendeu também ao Libor do Reino Unido, reflectem o custo dos empréstimos entre os bancos para diferentes maturidades, isto é a curto médio e longo prazo, respectivamente até 1, 5 ou 10 anos.

Mas antes de tudo isto, situação semelhante se passara no EUA, onde importa registar o abandono, por parte da Fed, no final de 2015, das taxas de juro próximas de zero, que causou sérios problemas às economias dos mercados emergentes que têm grandes necessidades de financiamento internas e externas, grandes quantidades de dívida em dólares, e fragilidades macroeconómicas e políticas. E renovou a consideração da substituição do dólar como moeda de referência. E que vários membros do comité de política monetária do banco central norte-americano se pronunciaram na reunião de Setembro passado por uma subida da taxa de juro "em breve", ao que a Wall Street reagiu positivamente.

Como os comunistas portugueses sublinharam no seu último congresso:
 “A integração de Portugal na CEE/União Europeia e na UEM foi e é um processo de permanente confronto com as conquistas da Revolução de Abril e a Constituição da República Portuguesa. Política de direita e integração capitalista europeia são duas faces de uma mesma moeda. A ruptura com a política de direita e com as imposições e constrangimentos da União Europeia – em que avultam no imediato o Euro e a União Económica e Monetária – e a luta em defesa da soberania e independência nacionais são elementos centrais da construção em Portugal de uma alternativa política, patriótica e de esquerda.”
 
artigo originalmente publicado nesta mesma data em "abrilabril"

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Bom fim de semana!, por Jorge

"L'avenir tu n'as point à le prévoir mais à le permettre"
"Não temos nada que prever o futuro, temos que o permitir"

Antoine de Saint-Exupéry
escritor e pioneiro da aviação francês, 1900-1944)

População, emigração e imigração


Dados económicos recentes são ligeiramente positivos mas insuficientes no que respeita ao crescimento do PIB.
Este depende de: consumo, investimento, despesa pública  e balança comercial.

São factores condicionantes externos: os juros pagos da dívida e esta própria que impedem recursos para o investimento público, donde a necessidade de reestruturar dívida, e os destinos de exportações bloqueados por crises e boicotes (Angola, Venezuela, Brasil, Rússia que exigem novos parceiros para a exportação e que contribuamos para acabar com boicotes políticos contrários aos interesses dops povos        
São factores internos condicionantes: baixo consumo limitado por baixos rendimentos,a banca recapilatizada não está a apoiar a economia, e o investimento privado

 

É inevItável  acompanhar as oscilações da população, população activa, emigração e imigração

Em 2011-2015, ou seja, em cinco anos, em que estivemos condicionados pela troika e o governo PSD/CDS, Portugal perdeu cerca de 500 mil habitantes para a emigração. Nos dez anos anteriores, ou seja desde o início do século até 2010 tinha perdido 700 mil.
 

Assim, em 2015, a população residente em Portugal foi estimada em 10.341.330 pessoas, menos 33.492 do que em 2014, o que representa uma taxa de crescimento efetivo de menos 0,32%, quando no ano anterior tinha sido de menos 50%. A tendência de decréscimo populacional que vinha desde 2010 (efeito da crise internacional) parou, porém, em 2014, 2015 e 2016 (dados ainda não publicados).

Nos últimos 5 anos 2011-2015 (troika+ governo PSD/CDS) houve uma redução da população activa de cerca de 269 mil pessoas.

 De acordo com os últimos censos, entre 2001 e 2011 o volume de regressos de emigrantes de longa duração (superior a um ano) alcançou os 40%, na sua maior parte não para exercer uma actividade económica.

Nas décadas de 60 e 70 do século passado, o grosso dos emigrantes tinha pouca ou nenhuma escolaridade, como o resto da sociedade. Agora, apesar de haver um número significativo e crescente de pessoas com ensino superior, a maioria dos que saem tem escolaridade média ou baixa.

Em 2015 existia uma população activa de cerca de 5,2 milhões (49% mulheres) para uma população em idade activa de 6,7 milhões (isto é, 23 desempregados em cada 100 portugueses em idade activa, com 15 ou mais anos até 65). Nos últimos 5 anos 2011-2015 (troika+ governo PSD/CDS) houve uma redução da população activa de cerca de 269 mil.

 
Qualquer política económica tem que atender a diferentes vertentes e o déficite humano é o mais emergente dos défices que o país enfrenta: a sua sustentabilidade demográfica, a braços com uma baixa taxa de natalidade, brutalmente agravada com a emigração massiva de jovens, afectam muito o potencial produtivo.~

 

Notas

(1) Saldo migratório é a diferença entre as pessoas que entram e saem de um país. Pode ser positivo, negativo ou nulo. SM=I-E. O saldo migratório pode também ser calculado pela diferença entre o acréscimo populacional e o saldo natural. Saldo natural é a diferença entre o número de nados-vivos e o número de óbitos, num  dado período de tempo. Pode ser positivo, negativo ou nulo. SN= N-M. 

Cessar-fogo na Síria e as futuras negociações com vista a uma solução política


 
No passado dia 30 de Dezembro os presidentes Putin e Erdogan anunciaram os termos de um acordo de cessar-fogo em que ambos os países se constituíam como garantes de quatro acordos que recolheram o apoio do governo sírio e da generalidade dos oposicionistas armados, excluindo apenas o Daesh/ Estado Islâmico e a Frente al-Nusra/Al Qaeda, que já em anteriores tentativas de cessar-fogo mediadas pela ONU não foram convidadas para o acordo por serem considerados como grupos terroristas. O Irão acompanhou a elaboração do Acordo mas fica, para já, como observador.

No dia seguinte, o Conselho de Segurança da ONU aprovou este acordo e a ONU envolveu-se no processo. Mas os EUA, a França e a Grã Bretanha deixaram expressas as suas reservas, tanto mais que foram preteridas como garantes no novo acordo de cessar-fogo, devido aos boicotes que promoveram ou aceitaram nas versões anteriores em que participaram, através dos EUA.

    - Todos os sete grupos armados que são parte do conflito, e as forças que as suportam, foram convidados a assegurar na data e hora acima referidas, as seguintes obrigações:

    - A cessarem todos os ataques, quaisquer que sejam as armas utilizadas, incluindo foguetes, morteiros mísseis anti-tanque e bombardeio aéreo;

    - A absterem-se de conquistar ou procurar conquistar territórios ocupados por outras partes no acordo de   cessar-fogo;

    - A recorrerem à força de forma proporcional (ou seja, apenas na medida necessária para responder a umameaça direta) e apenas em legítima defesa.

A Federação Russa apelou a que o Governo sírio, os grupos armados de oposição que favoreceram uma solução pacífica para o conflito e não se reclamem de ligações a organizações terroristas internacionais, bem como aos estados que têm influência sobre as partes do conflito, para aceitarem os termos propostos para a cessação das hostilidades

Em declaração semelhante, a Turquia referiu também que interveio decisivamente para finalizar evacuações humanitárias de Aleppo,  e que espera que, no pleno respeito do cessar-fogo e a perspectiva de transição política genuína de acordo com o Comunicado de Genebra e da resolução 2254 (2015) do Conselho de Segurança, o regime e a oposição comecem de imediato as conversações em Astana, na presença dos países que se constituíram como garantes, a tomar medidas concretas para reiniciar o processo político sob a égide da ONU, que continuará a trabalhar incansavelmente para alcançar este objetivo.

Rússia e Turquia aprovaram ainda um segundo Acordo sobre a criação de uma comissão mista, pontos de controlo para o estabelecimento de um mecanismo para registar as violações da cessação das hostilidades estabelecidas na República Árabe Síria de 30 de dezembro de 2016 e o estabelecimento de um sistema de sanções para violações

Entre os acordos assinados um terceiro é sobre a constituição das delegações responsáveis por iniciar negociações sobre uma solução política para uma solução abrangente para a crise síria através de meios pacíficos

O governo sírio tem constituída uma delegação que procurará trabalhar em conjunto com a delegação da outra parte a partir de 15 de janeiro de 2017, na cidade de Astana (Cazaquistão), com a participação das Nações Unidas.

Finalmente o quarto acordo contempla a constituição das delegações responsáveis por iniciarem negociações sobre uma solução política para uma solução abrangente para a crise síria através de meios pacíficos

 

A oposição concordou em constituir, até 16 de Janeiro de 2017, com a participação directa dos garantes signatários, uma delegação para as negociações e esta delegação procurará trabalhar em conjunto com a delegação da outra parte a partir de 23 de janeiro de 2017, na cidade de Astana (Cazaquistão), com a participação das Nações Unidas.

Entretanto o exército sírio continua a destruir recursos de equipamentos militares da Al-Nusra e Daesh em Deir Ezzor, Homs e Aleppo, e provocando muitas baixas de militares dos dois grupos.

Os terroristas realizaram um atentado terrorista com um carro armadilhado na semana anterior na cidade de de Yableh na província costeira de Latakia, causando numerosas vítimas mortais e feridos.

E o Exército Sírio foi obrigado a responder a um corte de água que atingiría 5 milhões de habitantes de Damasco. O grupo Jaysh al-Islam, financiado e apoiado pelo MI6 británico, que já no ano passado poluíra a rede de água da cidade, veio agora retirar-se do processo, ameaçando arrastar os outros seis grupos de “rebeldes armados” com a acusação de que a reacção síria teria violado os acordos…Esta posição levou as agências noticiosas internacionais a referirem que “mais uma vez o cessar-fogo tinha falhado”.

 

Porquê este novo posicionamento da Turquia?

Após ter alimentado a esperança de conquistar a Síria, o presidente Erdogan está a ser, em consequência da sua própria política, contestado em três frentes: pelos Estados Unidos e a FETO de Fethullah Gulen, pelos separatistas curdos do PKK e pelo Daesh.

A estes três adversários, poderia voltar a adicionar a Rússia, como no passado. Mas preferiu aliar-se com Moscovo e poderá, mesmo, sair do comando integrado da NATO.

Para isso contribuiu a ousadia da diplomacia da Federação Russa.

Isto vai alterar decididamente os equilíbrios no Medio Oriente e as potências ocidentais rapidamente se aperceberam disso e a multiplicidade de ataques terroristas na Turquia, Iraque e Síria que se seguiu não pode estar desligado disso.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Bom fim de semana, por Jorge

"Ohne Ehrfurcht vor dem Leben hat der Mensch keine Zukunft"

 "Sem profundo respeito pela vida, a humanidade não tem qualquer futuro"
 
Albert Schweitzer
médico, músico, teólogo, filantropo e nobel da Paz franco-alemão,
1875-1965 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A resolução do Conselho de Segurança da ONU, a reacção de Israel, e a situação na Palestina

Israel começou a construir uma rede de colonatos em toda a Cisjordânia, ocupada  em 1970, e continuou a expandir-se, depois dos Acordos de Oslo de 1993, o que acabou por dividir este território, consagrado como parte da Palestina por acordos billaterais, consagrados internacionalmente, em áreas palestinianas e outras israelitas.
Cerca de 385 mil colonos israelitas vivem na Cisjordânia ocupada, ao lado de 2,6 milhões de palestinianos.
Mais de 200 mil israelitas vivem ao lado de cerca de 300 mil palestinos em Jerusalém Oriental, que é a parte palestiniana da Cidade Santa que Israel ocupa desde 1967 e que acabou por anexar em 1980.
A recente resolução 2334 do Conselho de Segurança, do passado dia 23, pediu a Israel pela primeira vez, desde Março de 1980 para parar de construir colonatos nos territórios da Palestina e de Jerusalém Oriental, numa resolução em que, também pela primeira vez, os EUA não usaram sobre a mesma matéria o seu veto, ficando-se pela abstenção. Todos os 14 outros membros do Conselho votaram favoravelmente a resolução, depois de uma proposta originalmente avançada pelo Egito.
 
 
Porque decidiu Obama despedir-se com esta atitude, entre outras, agora quando a podia ter tomado em anos anteriores dos seus mandatos?
Penso que por várias razões.
A primeira, para tentar provocar um vade retro por parte Trump, apesar de a resolução não ter efeitos sobre a política que os israelitas realizam. Incomoda-os, isso sim, como mostra a suspensão de mais um colonato ontem em Jerusalém Oriental.
Por outro lado, para capitalizar a opinião de outros países árabes para a luta interna em que, obviamente, e apesar da perspectiva que avançou de ir calçar as pantufas, vai continuar. E continuará em muito melhores condições, que outros aliados do lobbie israelita nos EUA, como Hillary Clinton, Bil Clinton ou John McCain, que já não têm igual pedalada, apesar de a estrutura económica, política e militar a que estão associados, manter solidez e não depender apenas de um "one man show".
O efeito das invasões de território palestino e a construção de colonatos na Cisjordânia criou uma situação muito complexa, como o demonstra a infogravura junta do Le Monde de ontem. Suspender novos colonatos é importante mas a situação criada pelos colonatos já existentes será de dificil retorno quando a Autoridade Palestiniana segue de cedência em cedência até ao descrédito total que se reflecte também na crescente marginalização internacional.
E, se de Gaza, em tempos idos, houve possibilidades de dar alguma força à causa palestiniana, o Hamas acabou por fazer do seu governo nesta faixa um sistema retrógrado e autoritário, com o cariz da Irmandade Islâmica, incapaz de combater eficazmente o cerco de Israel e do Egipto, como o lembrou na Abrilabril, e bem, José Goulão na sua resenha sobre o Médio Oriente em 2016.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Refugiados – a outra face do imperialismo norte-americano e dos seus aliados



Enfrentar as causas da imigração passa pelo fim das guerras e agressões, e das políticas neocoloniais de exploração dos povos, pelo respeito da soberania e independência dos Estados, pelo combate à pobreza e por políticas de real solidariedade e cooperação.

Os responsáveis de uma crise

A crise dos refugiados, desde o início deste século, ocorreu particularmente depois da invasão do Afeganistão, em 2001, do Iraque, em 2003, e do início das «primaveras árabes», a partir dos finais de 2010, e depois com a proliferação de grupos terroristas nestes países, na Síria, e em vários países do Norte e Centro de África (Norte, Centro e Corno de África).

A avalanche de refugiados destes países, que fugiram dos horrores da guerra, responsabiliza em primeiro lugar os EUA, por razões económicas, de disputa de petróleo e domínio dos fluxos do gás natural. EUA que, num quadro de disputa geoestratégica, investiram, particularmente quando deixaram de ser a principal potência comercial mundial e se viram confrontados com potências emergentes que passaram a configurar um mundo multipolar e a disputar a liderança do dólar, a criar associações regionais e instituições de financiamento em que eles já não mandam.

Mas responsabiliza também a União Europeia e a sua política de imigração por mais estas tragédias humanitárias e de perdas de vidas humanas. E a Arábia Saudita no seu objectivo de dominar o Corno de África.

Foram até agora milhões, entre deslocados internos em cada país e emigrantes, que fugiram à guerra, à fome e à pobreza extrema.

Seres humanos procuram fugir da pobreza, da guerra, de maus-tratos e da morte, por vezes famílias inteiras, que arriscam a vida em luta pela sua sobrevivência e carregam consigo histórias dramáticas de vida. A comunidade internacional tem obrigação de cumprir com o princípio basilar consagrado na Carta das Nações Unidas, relativamente ao seu inalienável direito à vida e à dignidade.

Uma imigração, também de substituição

Enquanto aumentou o caudal de imigrantes pelas razões indicadas, o neoliberalismo provocou o decréscimo acentuado da população nos países desenvolvidos.

A ONU concluiu em 2001 que durante os 50 anos seguintes a população da maioria destes países desenvolvidos diminuiria e envelheceria em resultado da queda acentuada dos níveis de fecundidade e mortalidade, e que seria necessário manter certos níveis de imigração para evitar o decréscimo populacional em todas as regiões e países referidos no estudo. Mas o número de imigrantes necessários para evitar o decréscimo da população activa revelou-se mais elevado. A Alemanha e a Itália precisaram de um número bastante mais elevado. Este processo foi acompanhado pela captação preferencial de quadros, em que concorreram com idênticas políticas de atracção a Inglaterra e os EUA.

A vaga de refugiados de que falamos no início soma-se a estes fluxos.

A União Europeia e a Turquia

Encarando esta crise como uma ameaça e discriminando, na resposta a dar, refugiados e migrantes, a UE não quis responder a este drama, antes deu argumentos ao racismo e xenofobia. E, também a pretexto do drama humanitário, a União Europeia, seguindo os EUA e a NATO, permitiu novas aventuras militares no Médio Oriente e no continente africano.

Os principais países europeus envolvidos nestas práticas foram a Inglaterra, França e Alemanha. Mas quiseram libertar-se das responsabilidades, enxotando-as para os países balcânicos, que passaram a fazer o «jogo sujo» de conter o fluxo dos refugiados. Por sua iniciativa, a UE aceitou estabelecer acordos com a Turquia, de maneira surpreendente, aceitando imposições financeiras, e não só, de Erdogan, em troca de a Turquia ampliar o seu esforço de conter o fluxo dos que atravessam o seu território rumo à Europa. E com duas fases de exigências financeiras.

«A resposta a esta "crise" passa, em primeiro lugar, pelo respeito dos direitos humanos, incluindo os sociais e laborais, e do direito dos povos ao desenvolvimento.»

A maior exigência, apresentada na cimeira extraordinária sobre o tema, em Março deste ano, em Bruxelas, foi financeira: Ancara quis, até 2018, que a UE passasse para 6,8 mil milhões de euros a ajuda aos cerca de 2,5 milhões de refugiados que têm vivido em acampamentos turcos, a maioria dos quais sírios, que cruzam a fronteira para escapar da guerra em curso há cinco anos.

Em Novembro, na anterior reunião, o bloco europeu já havia acertado com a Turquia três mil milhões de euros para esse fim, ao longo de 2016 e 2017, tendo então de imediato a Comissão Europeia libertado a primeira tranche, de 95 milhões.

A principal oferta turca foi dispor-se a aceitar de regresso para seu território todos os «migrantes irregulares», apanhados em barcos no mar Egeu, inclusive aqueles que tivessem chegado a ilhas da Grécia, ou seja, já em solo europeu. Os custos dessas operações seriam pagos pela União Europeia.

Desde então, uma missão da NATO passou a patrulhar o Egeu para impedir as travessias ilegais. A contrapartida pedida por Ancara é que, por cada sírio que seja reconduzido das ilhas gregas para a Turquia, outro que estivesse a viver em acampamentos turcos entrasse numa lista a quem é garantido o acolhimento em países da UE.

O actual secretário-geral da ONU, António Guterres, à altura responsável pelo ACNUR [Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados], criticou este acordo em Abril deste ano, propondo como alternativa «a oferta maciça de reinstalação legal» para compensar um travão colocado no movimento irregular de pessoas em direcção à Europa, como forma de combater o contrabando e o tráfico humano. Infelizmente, o que foi posto em cima da mesa no acordo entre a União e a Turquia não foi isso. É: por cada um que é reenviado para a Turquia, vai-se buscar um. Ou seja, quanto menor for o movimento, menor é o número de pessoas que vêm legalmente para a Europa. Quando é exactamente o contrário: quanto menor for o movimento, maior deve ser o número de pessoas que vêm legalmente para a Europa. O que precisamos é de uma perspectiva distinta.

A resposta a esta «crise» passa, em primeiro lugar, pelo respeito dos direitos humanos, incluindo os sociais e laborais, e do direito dos povos ao desenvolvimento. Passa também pelo abandono da política de repressão e de militarização deste drama, que só alimenta as redes de imigração ilegais, e por uma política humanitária de apoio aos refugiados, ao seu bom acolhimento.

Mas, sem ilusões, o combate às causas da imigração passa pelo fim das guerras e agressões que estão na sua origem, pelo fim das políticas neocoloniais de exploração dos povos em países de África e do Médio Oriente, pelo respeito da soberania e independência dos Estados, pelo decidido combate à pobreza e por políticas de real solidariedade e cooperação para o desenvolvimento dos países economicamente menos desenvolvidos.

Principais fontes de refugiados, segundo dados do ACNUR sobre o ano de 2015

Sendo de prever para 2016 uma redução significativa de refugiados vindos do Norte de África, o cômputo global feito pelo ACNUR relativo ao ano que está a acabar só será concluído no início de 2017. Os dados disponíveis são do ano de 2015.

A Síria é vítima de uma agressão em que convergem EUA, França, Inglaterra, Turquia, Arábia Saudita e outras monarquias do Golfo e Israel. Os ataques da Al-Nusra (Al-Qaeda), Exército Livre Sírio e outros grupos, incluindo o Estado Islâmico (que chegou a controlar 50% do país), fizeram com que mais de 20 milhões de habitantes fossem obrigados a abandonar as suas casas; e que 7,5 milhões de pessoas se deslocassem para outras partes da Síria e quatro milhões para a Turquia, Líbano e Jordânia. Depois do fim do drama em Aleppo, uma acção concertada com a Síria da Rússia, Turquia e Irão, poderá, com a paz, estancar-se este êxodo e ir recuperando condições de vida dignas para os refugiados.

Segundo o ACNUR, 34 % das pessoas que procuraram a Europa em 2015 eram sírias.

Em vários períodos dos últimos 40 anos do Afeganistão registou-se um acréscimo de refugiados e deslocados. Iniciou-se na revolta armada dos talibans, radicais islâmicos que desrespeitavam os mais elementares direitos humanos, a partir de 1990, nas tribos da etnia Pachtun, que habitam principalmente as regiões Leste e Sul do Afeganistão e também no Paquistão. Esta revolta foi contra o governo eleito democraticamente no país, depois da revolução de 1978, seguida da intervenção pedida por este aos soviéticos (1979-1989), na Guerra Civil (1992-1996), que terá provocado mais de um milhão de mortos, em que os vários grupos em confronto confiscaram terras dos camponeses, quer no regime Talibã (1996-2001), quer, depois, na intervenção norte-americana, no pós-11 de Setembro, que dura desde então.

A influência dos talibans, com o apoio do Paquistão, confrontou os governos do Afeganistão, provocando 710 mil deslocados internamente, 2,5 milhões deslocados noutros países, dos quais 95% no Paquistão e Irão. Desde 2002, mais de 3,8 milhões, devido às perseguições sofridas no Paquistão, regressaram ao Afeganistão.

Os EUA continuam a não dar mostras de contribuir para a solução desta questão.

Cerca de 12% dos clandestinos entrados em 2015 na Europa, pelo Mediterrâneo, eram afegãos.

Independente da Etiópia desde 1993, a Eritreia, com o presidente Isaias Afwerki, líder da independência, tem rejeitado as ingerências imperialistas. Tem sofrido ataques da Etiópia, que continua a ser fiel aliado de Washington.

216 mil refugiados repartiram-se entre os vizinhos Etiópia e Sudão. Mas as difíceis condições dos campos de acolhimento nestes países fizeram com que parte deles fosse para a Europa, onde têm um estatuto especial de «refugiados políticos», pressionado pelos EUA como forma de «comprovar a opressão interna na Eritreia».

«Os traficantes de refugiados [...] estão cada vez mais ligados ao crime organizado nos diversos países onde ocorre o fluxo migratório.»

Na Somália, prossegue uma difícil situação, com conflitos, desde a queda de Siad-Barre, em 1991, o que, com secas esporádicas, leva a grandes deslocações internas, e a um Estado falhado.

Também a acção da milícia islâmica Al-Shabaab, ligada À Al-Qaeda, impede a chegada de apoio humanitário de organizações estrangeiras, o que acentua situações de pobreza.

Segundo o ACNUR, houve deslocações internas de 1,1 milhões de pessoas e de um milhão para os países vizinhos Quénia, Etiópia e Iémen.

A Nigéria tornou-se no mais recente exemplo, em África, da internacionalização de um conflito interno. Os ataques da seita islamita Boko Haram, activa desde há anos no Nordeste do país, aumentaram nos últimos dois anos, perante a ineficácia do Exército nigeriano, acusado de corrupção e de não querer combater.

Em consequência dos combates com os terroristas, há uma deslocação interna de 1,3 milhões de pessoas e uma deslocação de 150 mil para o Chade, Níger e Camarões.

O tráfico de refugiados

Os traficantes de refugiados fazem parte de complexas redes criminosas internacionais, que não reconhecem fronteiras. Estes traficantes estão cada vez mais ligados ao crime organizado nos diversos países onde ocorre o fluxo migratório.

Em muitos casos os refugiados não têm outra escolha se não colocar as suas vidas e elevadas quantias nas mãos de traficantes, e com tantos mais riscos quando a pressão migratória aumenta, acentuando a precariedade das deslocações.

Quando não têm dinheiro – e isso acontece especialmente com os refugiados do Norte de África, que não têm dinheiro para pagar pela viagem entre sete e 11 mil euros –, os EUA pagam, através de várias organizações «humanitárias» suas, altas somas em dinheiro aos contrabandistas, que levam para a Europa, de forma ilegal e diariamente, milhares de refugiados.

Outra forma de os mais jovens fazerem a viagem é prostituírem-se ou roubarem e trabalharem para os traficantes.

Obama, Hollande e Cameron irão sair de cena com o mundo a apontar-lhes o dedo acusador por crimes contra a Humanidade, de que os refugiados são uma dolorosa consequência.

Nota - Artigo originalmente publicado em 26/12/2016 em www.abrilabril.PT
 

 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Bom fim dfe semana, por jorge

"We think too much and feel too little.
More than machinery, we need humanity.
More than cleverness, we need kindness and gentleness."

"Pensamos de mais e sentimos de menos.
Mais do que maquinaria, precisamos de humanidade.
Mais do que esperteza, precisamos de delicadeza e gentileza."

Charlie Chaplin
actor e realizador de cinema
Inglês, nasc.1889 - falec. no dia de natal de 1977

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Obama sai com pesadas responsabilidades nas aflições que o mundo e o seu país enfrentam

Obama termina o seu mandato com um conjunto de diatribes e fogos fátuos que tentam disfarçar, ou atirar para responsabilidade de outros, os fracassos da sua política externa baseada em agressões noutros pontos do mundo. No início dos seus mandatos, a organização do Prémio Nobel atribuiu-lhe o Nobel da Paz, sem provas dadas, a não ser promessas que não cumpriu, depois do povo americano ter acreditado no “Yes, we can” de Obama. Os anos de Obama na presidência foram dos mais belicosos. O legado que deixa no seu próprio país é o de uma grande incógnita. Se no mundo reinasse a liberdade de informação, hoje travestida de monopólio dessa “liberdade” pelo imperialismo, a História iria julgá-lo tal como ele realmente foi.

Evacuação de Aleppo Oriental revela presença em bunker de oficiais estrangeiros

Segundo a rede Voltaire, os jihadistas que ainda ocupavam vários bairros em Aleppo oriental foram autorizados a sair, de acordo com sua própria vontade, para as cidades sírias de Idlib, sob o controle o controle da Al-Qaeda ou de Raqqa, o controlo doDaesh ou que se entregaram ao Exército Árabe Sírio. Aqueles que optaram pela saída foram evacuadas em autocarros, sob a proteção da República Árabe Síria e da Federação Russa, na presença de representantes da ONU.



Alguns jihadistas tentaram fugir misturando-se com os civis. Os serviços de inteligência identificaram-nos e mais de 1.500 foram presos durante o processo de registo dos cerca de 120 000 que se encontraram nos bairros libertados.

O deputado e presidente da Câmara de Comércio de Aleppo, Fares Shehabi, publicou uma lista não exaustiva de 14 oficiais estrangeiros detidos pelas forças especiais sírias no bunker da NATO do leste de Aleppo. São eles:

• Kanoglu Mutaz - Turquia
• David Scott Winer - Estados Unidos
• David Shlomo Aram - Israel
• Muhamad Tamimi - Qatar
• Muhamad Ahmad Assabian - Arábia Saudita
• Abd al-Fahd al-Harij Menham - Arábia Saudita
• Ezzahran Salam al-Islam Hajlan - Arábia Saudita
• Naoufel Ben Ahmed al-Darij - Arábia Saudita
• Muhamad Hassan al-Sabihi - Arábia Saudita
• Fahad Hamad al-Dousri- Arábia Saudita
• Amjad al-Qassem Tiraoui - Jordania
• Qassem Saad al-Shamry - Arábia Saudita
• Ayman al-Qassem Thahalbi - Arábia Saudita
• Ech-Chafihi Mohamed el-Idrissi - Marrocos

Esta lista identifica apenas os agentes que concordaram em identificar-se. Outros prisioneiros, que não quiseram revelar a sua identidade, representam evidentemente os outros Estados envolvidos nesta guerra de agressão contra a República Árabe da Síria.
Em conformidade com a Convenção de Genebra sobre prisioneiros de guerra, não foram publicadas imagens desses militares.

Em Fevereiro de 2012, cerca de 40 oficiais turcos e cerca de vinte oficiais franceses foram devolvidos aos seu países através do mediador Mikhail Fradkov, director dos serviços de inteligência russos, ou entregues directamente ao almirante Edouard Guillaud, Chefe do Estado Maior das forças francesas na fronteira com o Líbano.