sexta-feira, 31 de julho de 2015

Ó Costa, queres resposta? Fica lá mais para a frente.

O putativo candidato a 1º Ministro, aliás figura constitucionalmente inexistente a que se faz olho grosso para facilitar a "alternância" no quadro de um "arco da governação", que também não se enxerga na lei fundamental, saiu-se esta semana com uma máxima cujo sentido não vislumbro. Disse o ex-autarca de obra mal-feita em Lisboa, que "o radicalismo ideológico deste governo é semelhante ao de ...Vasco Gonçalves"!!! Nem mais.
Poderia ter dito semelhante ao de Salazar, Spínola, Carlucci ou do Bispo de Braga do tempo do PREC. Ou mesmo de alguns correligionários seus. Para já não falar de Sá Carneiro. Não. Deu-lhe para ali.
 
Talvez seja para enxertar na campanha eleitoral um tema de fractura no campo democrático. Mas é tão ronceiro e tão baixinho.
Todos sabemos porque lhe dói aí. Por ter sido um período de entusiasmo, de avanço do país, de conquistas em tantos campos, muitos das quais ainda hoje perduram. Pela minha parte adiarei esta questão lá mais para a frente. Não caio na esparrela.
 

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"Le temps est un grand maître.
Le malheur, c'est qu'il tue ses élèves."

"O tempo é um grande mestre,

o que é pena é matar os discípulos"

Hector Berlioz

compositor francês
1803-1869

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O equilíbrio das pedras, de Michael Grab

O autor, introduzindo pequenos entalhes em seixos e pedras, constrói elementos escultóricos que parecem desafiar a gravidade e a nossa imaginação.


A destruição de vidas e economias africanas e o discurso paterno-imperial de Obama ontem em Addis Abeba


A destruição de economias baseadas no turismo de África são a consequência da acção de destruição e terror dos jihadistas. Já não falo da Líbia entregue a bandos rivais de criminosos. Falo da Argélia, da Tunísia, do Quénia e do Egipto. O Daesh, em África, com várias designações, mas sempre tendo como forças impulsionadoras Israel e a Arábia Saudita, ataca países não preparados para enfrentar a complexidade deste tipo de terrorismo. E é previsível que este se estenda a outros países africanos que possam vir a merecer as opções do turismo.

Várias agências de turismo boicotam as viagens para estes destinos e encaminham os turistas para outras paragens.

 
De certa maneira, tem alguma coisa a ver com isto, a visita a África de Obama que ontem terminou com uma declaração (decreto imperial), ontem na sede da União Africana em Addis- Abeba, capital da Etiópia, que culminou um périplo feito pelo presidente norte-americano a vários países africanos.

Fez a crítica às práticas eleitorais nalguns regimes africanos quando o sistema eleitoral dos EUA é dos mais iníquos do mundo, consagrando uma rotação de dois partidos que blinda o acesso ao poder de outros protagonistas. Fez o apelo ao fim da corrupção, que se desenvolve de forma epidémica nos EUA. Apelou a uma distribuição mais justa dos frutos da economia, coisa que tão maltratada é nos EUA.

Apelou ao investimento na educação, à construção de hospitais e outras infraestruturas sociais, não referindo que apoios poderia dar a tais construções de forma desinteressada. O exército dos EUA dispõe de equipas de engenharia e e projecto que poderiam cooperar com os responsáveis destes países para esse efeito.

Defendeu a igualdade de género. Condenou a mutilação genital feminina, os casamentos infantis, e todo tipo de violência contra as mulheres sem as quais “África nunca poderá desenvolver-se completamente”. Questões que contêm aspectos justos que deveriam ser motivo de contactos bilaterais, com restrições às relações com esses países se certas práticas desumanas não fossem corrigidas.

Ainda criticou dirigentes africanos que aceitam ser reeleitos mais que duas vezes consecutivas, esquecendo que alguns países carecem de estabilidade de referências, por essa estabilidade ter sido profundamente posta em causa por guerras continuadas e a acção de bandidos, muitos dos quais subsidiados pelos EUA. Nesse aspecto, o longo tempo concedido pela RTP ao discurso do Obama, legendado em português, para utilização na RTP internacional, foi um brinde à UNITA que, uma vez mais, agradece.

Obama não falou das causas da imigração ilegal que é dirigida à Europa. Como se os ataques da NATO e dos grupos terroristas que os EUA apoiam em território africano não tivessem nada a ver com isso. Nem dos séculos de humilhação e atraso que os seus parceiros europeus da NATO praticaram durante séculos.

O discurso de Obama tem aspectos de um paternalismo humilhante mas é também o discurso do chefe que se perfila para as instituições africanas partilhadas e seus efeitos (saque de explorações petrolíferas, domínio das economias pelas multinacionais, expatriação de lucros e dividendos, exército africano de intervenção rápida contra quem saia da linha, redução das soberanias dos países integrantes, trabalho, direitos laborais e sociais mitigados). É um projecto não de ontem mas em marcha nos últimos anos.

As manifestações de hoje em Lisboa e Luanda contra o presidente angolano, o papel da UNITA e os esclarecimentos do MPLA

Nos últimos dias tem circulado em meios de comunicação social portugueses, com destaque para a Antena Um, uma gravação de promoção da manifestação que hoje está marcada para Lisboa e que procura replicar outra semelhante nos objectivos que se irá realizar em Luanda.
 
O tema central é a exigência de libertação de jovens "presos políticos" em Angola. Sobre este movimento, o Jornal de Angola de hoje refere que o 1º secretário do MPLA de Luanda, Bento Bento, que falava durante um acto político de massas, na Cidadela Desportiva, revelou que 99 por cento dos integrantes do “Movimento Revolucionário” pertencem ao braço juvenil da UNITA, a JURA, e procuram desestabilizar a paz e a democracia no país, com o objectivo de derrubar pela via inconstitucional o Governo liderado pelo Presidente José Eduardo dos Santos.
Bento Bento

Segundo este dirigente do MPLA, os 15 elementos do “Movimento Revolucionário” estão detidos, acusados de tentativa de preparação de actos de rebelião e atentado ao Presidente da República, com o “apoio directo” de personalidades da UNITA com responsabilidades na Assembleia Nacional.
Bento Bento apelou aos partidos políticos que pretendem alcançar o poder político a utilizarem a via democrática. “A via democrática normal aqui no nosso país passa pela criação de partidos políticos e a mobilização do povo para enfrentar o MPLA nas próximas eleições e procurar ganhar”.
 
Este aviso deve ser uma resposta à intervenção recente, em Madrid  do dirigente da UNITA, Isaías Sumakuva, que "alertou para o risco de um novo conflito sangrento" caso não haja democracia no país. Esta declaração foi feita no âmbito de uma viagem a vários países para pedir à comunidade internacional pressão sobre o presidente angolano, José Eduardo dos Santos, sobre o que o dirigente da UNITA considera ser um retrocesso do processo democrático em Angola. Conhecido que é o percurso da UNITA, mesmo depois da morte de Savimbi, depois de acordos de paz e eleições, este alerta é uma ameaça.
 
Os organizadores desta manifestação já tinham cancelado outra prevista para 7 de Março, por "falta de condições para a sua realização", depois da detenção de cerca de vinte pessoas, incluindo um jornalista português, de imediato libertado, na madrugada anterior, na Praça 1º de Maio.
Isaías Sumakuva

Luis Pastor canta Saramago


terça-feira, 28 de julho de 2015

A Turquia na corda bamba

O encontro de hoje do governo de Ankara com os embaixadores dos países da NATO não vai alterar o sentido dos acontecimentos dos últimos dias. Esses países decidiram apoiar os bombardeamentos de Erdogan contra curdos e contra (?) o Estado islâmico.

A perseguição aos curdos baseou-se num atentado, não reivindicado pelos curdos, e quebrou as tréguas entre as duas parte,s correndo-se agora o risco de se reacender esta guerra que já custou muitas vidas no passado. O partido de Erdogan, o AKP, e outro partido nacionalista, o MHP, por outro lado, já anunciaram a intenção de ilegalizar o partido pró-curdo, o HDP.
A “exigência” dos EUA de que a Turquia bombardeie o Estado Islâmico é um exercício de hipocrisia. O Estado Islâmico foi criado pelos EUA para combater a Síria, substituindo os “rebeldes sírios” que tinham sido derrotados nesse objectivo e criar um tapete de acesso à Rússia.

Hoje é sustentado, como já aqui referimos, por Israel, a Arábia Saudita e pela Turquia. Em território turco existe mesmo um hospital para tratar dos jihadistas do EI feridos em combate, dirigido pela própria filha de Erdogan, Tayyp Erdogan, responsável pelas relações internacionais do AKP. E é um outro filho de Erdogan, Bilal Erdogan quem negoceia o petróleo roubado pelos jihadistas nos territórios por onde passa, usando a sua companhia marítima, a BMZ Ltd.
Erdogan poderá fingir um recuo até porque a situação interna na Turquia está à beira de uma revolta popular e pairam de novo velhos projectos da cisão da Turquia em três partes. Mas, com vista às eleições lá vai tomando medidas para que o partido pró-curdo não participe nelas.

O Estado Islâmico é, assim, neste momento um instrumento da NATO e da União Europeia contra a Rússia. E chegará o dia em que também o será contra a China.

Não foi por acaso que a Rússia, no âmbito das conversações 5+1 com o Irão, fez consagrar cláusulas que, na sua óptica, poderão evitar o deslocar do Estado Islâmico do Levante para o Cáucaso, no que terá tido o apoio de Washington. Isso envolveria um acordo entre a Síria, que é atacada pelo EI, a Arábia Saudita, que é hoje o principal financiador dos terroristas e a Turquia, que garante o comando operacional do EI e lhe dá apoios que já atrás referimos. Estas diligências de Putin começaram há um mês e passaram a ser consideradas pelas partes envolvidas.
Os acordos de Viena do passado dia 14 entre o Irão e o Grupo 5+1 (as potências com assento permanente no Conselho de Segurança mais a Alemanha), levaram a que o presidente iraniano os saudasse, referindo que não tinham beliscado “as linhas vermelhas” do país e que iriam permitir o Irão concentrar-se noutras questões.

Mas há também quem veja neles uma partilha de zonas de influência entre Washington e Teerão. É o caso de José Goulão que sustenta no seu blogue O Mundo Cão, que os acordos se traduziram “ numa partilha de influências no Médio Oriente ampliado, envolvendo pois a chamada Eurásia, capaz de permitir ao Pentágono transferir o núcleo duro do seu impressionante aparelho de guerra do Médio Oriente para a Ásia, posicionando-se ante os novos inimigos, a China e a Rússia (…) “em termos gerais, os Estados Unidos e os seus principais aliados no Médio Oriente, leia-se Israel e Arábia Saudita, têm como zona de influência as petromonarquias da Península Arábica mais o Iémen e respectiva ponte para o Corno de África, a Jordânia, o Egipto e a Palestina – o acordo prevê que o processo de Oslo seja retomado, outra medida que deixa Netanyahu fora de si. O Irão, que se compromete a “não exportar a revolução”, mantém as suas influências na Síria, no governo iraquiano instalado em Bagdade e nas correntes islâmicas mais intervenientes no Líbano, devendo o Hamas adaptar-se ao que seja estabelecido em relação à Palestina.” Traduzindo-se num aparente recuo de Washington, importa, por exemplo, ter em conta que o Daesh está também já presente nas fileiras do exército ucraniano, como forma de compensar a desmoralização das tropas ucranianas. Mas não só. E isto numa altura em que NATO iniciou no passado dia 20, manobras militares no oeste da Ucrânia, com quase dois mil militares de 18 países, tendo Moscovo avisado dos riscos que isso envolvia para o processo de paz. Ucrânia em que o governo de Kiev anunciou a intenção de ilegalizar os partidos comunistas do país para não concorrerem às próximas eleições.

A diplomacia marca pontos mas os riscos de guerra estão bem presentes.

 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

O espectáculo no Lago Crater, foto de Keith Marsh

Especializado nos últimos quatro anos no que designa por paisagens astrofotográficas , Keith Marsh capturou a Via Láctea em locais desde o Alaska até Cuba. Fotografou o Lago Crater no Oregon procurando o sul a partir do lado norte, onde a Via Láctea é mais brilhante . "Eu também queria ter algo em primeiro plano para maior interesse e passei várias horas durante o dia procurando apenas o momento certo ", escreveu. " Ao virar-me , dei com  esta velha árvore morta, muito popular entre os fotógrafos , e ao longo de várias horas, acabaram por se amontoar 20 fotógrafos neste mesmo lugar." As luzes no horizonte são das Quedas de Klamath, no Oregon, a cerca de 60 milhas.

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"La raison pour laquelle tant de gens trouvent
qu'il est si difficile d'être heureux,
c'est qu'ils imaginent toujours le passé meilleur qu'il n'était,
le présent pire qu'il n'est vraiment
et le futur plus compliqué qu'il ne sera."
 
"A razão por que tanta gente acha tão difícil
ser feliz é que imaginam sempre o passado melhor
do que era, o presente pior do que de facto é
e o futuro mais complicado do que há-de ser."
Marcel Pagnol
escritor, dramaturgo e cineasta francês, 1895-1974

Colectânea de fotos de Sebastião Salgado


Nas suas fotos estão presentes o limite, o conflito, o mundo da humilhação, da opressão, mas também da esperança, da solidariedade e da capacidade humana de resistir. A objectiva intervém para provocar o debate e construir a solidariedade aos trabalhadores, porque encontrou na resistência destes uma forma de quebrar a lógica do mercado e de resistir ao que Salgado chama de "extinção da espécie".
Fotografando sempre em preto e branco, o seu trabalho é carregado de imagens fortes e muitas vezes muito tristes, mas carregam uma beleza e singularidade ímpar.

NATO vem em apoio das grandes potências europeias contra os países do sul da Europa. Passos Coelho envolve-se até ao pescoço!.


A “Trident Juncture 2015” (TJ15), será uma das maiores manobras militares da NATO em território europeu.
De 28 de Setembro a 6 de Novembro, com particular participação da Itália, da Espanha e de Portugal, mais de 230 unidades terrestres, aéreas e navais e forças de operação especial de mais de 30 países aliados e parceiros, com 36 mil homens, mais de 60 embarcações e 140 aviões de guerra, além da indústria militar de 15 países para avaliar de quais armas necessita a Aliança.


Neste exercício de guerra, a NATO envolverá 12 das maiores organizações internacionais, agências de ajuda humanitária e associações não governamentais. “Participarão na TJ15 também a União Europeia (UE) e a União Africana”, referiu a NATO em comunicado. Entre os países da UE mais empenhados nas manobras da NATO figuram, além dos três citados nos quais se desenvolverão a maior parte das operações, também a Alemanha, a Bélgica e a Holanda. Altas personalidades internacionais serão convidadas a assistir à TJ15 em 19 de Outubro em Trapani (Itália), em 4 de Novembro em Saragoça (Espanha) e em 5 de Novembro em Troia (Portugal).
O deslaçar da UE, resultante dos efeitos trágicos das políticas de austeridade, parece ser "a preocupação" dos EUA e da NATO, agravada com "o medo" que têm da Grécia aprofundar relações com a China e a Rússia. Mas a Rússia também vai ser objectivo destas operações.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

As mulheres portuguesas saberão dar resposta a este profundo retrocesso


"Os gatos não têm vertigens", por Ana Moura


Mostrengos

Nos últimos dias, esta espécie multiplicou-se em declarações, procurando conter a derrota que se avizinha.
 
Luísa Albuquerque diz que está com os cofres cheios, o que não admira face à razia em salários, pensões, impostos, reduções de apoios à Educação e Saúde e Segurança Social, envelopes de miséria nas transferências de competências para as autarquias, execuções fiscais aos que menos têm, etc.
Falta de vergonha de quem nos andou a esmifrar para...(a ver vamos)...
Luís Montenegro e o jornalista António Costa, ambos do PSD, a sublinhar que Cavaco Silva tinha feito um apelo ao voto útil da esquerda no PS. Cada um tem que jogar papéis a favor da política de direita. Eles jogaram este. Papel menor, bafiento e rasteirinho.
Podiam ter discorrido sobre os recursos públicos desviados para privados na banca e noutros sectores como a Saúde, mas não só. Podiam ter discutido as reduções dos subsídios de desemprego e de outras prestações sociais. Podiam ter falado sobre o "efeito positivo" das privatizações, da exportação de dividendos. Tudo para justificar a "sensação" de maior desafogo económico que as famílias e as empresas estarão a experimentar (certamente apurado por uma sondagem feita lá em casa, que excluísse os "criados" dos respectivos lares).
Cavaco Silva, que jurou fazer aplicar e defender a Constituição, fez uma arenga ao apelo a soluções de governo que esta não consagra já que define como os votos se transformam em deputados e que é na Assembleia da República que se estabelecem as maiorias ou minorias que sustentam o governo. Cavaco chantageou, sem base na verdade constitucional, os portugueses a votarem como ele quer, chegando a definir linhas de política futura.
Só quem anda de braço dedo com este mostrenguinho, sem aceitação popular, é que poderia condicionar a campanha eleitoral à discussão das maiorias, arcos, alternâncias que há muito borregaram para que nela não se sinta, com força, a voz dos portugueses. Que, na sua grande maioria, têm sido vítimas desta cegueira pertinaz de quem não sabe ser governo com apoio popular, recolhe os votos para os meter nas gavetas, de quatro em quatro anos, faz o contrário do que prometeu e se queixa dos protestos que percorrem os mandatos.
Passos Coelho, que não se livra da Tecnoforma nem de mentirolas sobre o seu desempenho, de baixo nível, a propósito da Grécia, nem da denúncia do Tribunal de Contas que martelou as contas do ano passado, continua convicto que os portugueses ^"não vão querer deitar fora o que conquistaram nestes anos" (Mas o quê, criatura? Continua a delirar...). Agora desafiou a oposição. "Digam lá onde vão buscar recursos para a Educação, Saúde e Segurança Social". João Ferreira respondeu-lhe bem hoje, no Conselho Superior da Antena Um. A pergunta não esconde a raiva deste pm contra as funções sociais do Estado e o Estado Social. E João Ferreira referiu que com a decidida tributação financeira de dividendos, das especulações bolsistas, do património mobiliário e das grandes fortunas  e o fim dos desastrosos "negócios" do Estado como as PPs e SWAPS, a renegociação da dívida e o correspondente acesso ao serviço da dívida que se pouparia, o país pouparia cerca de 15 mil milhões de euros por ano!!!

"Asas nos pés e o céu desnecessário", de Miguel Torga


 

tantas vezes a tua voz me chega de longe como um pronúncio de sorte. dizes: está tanto frio aqui.     - mas é tão grande a sorte de te ouvir que não sei que dizes - um cheiro forte a ervas doces e no umbigo a força de sete mares - e sei da copa das árvores sob as margens do lago da nossa morte. a água tão parada. as folhas tão quietas. a barca tão distante - o teu peito farto de frio o meu farto de ternura. deixo cair a cabeça no teu ombro e tu respiras tão fundo que eu sei o caminho que o ar percorre dentro do teu corpo - tão dentro da noite. o corpo só. a despedir-se de todas as memórias possíveis - quis dizer: perdoa-me - mas o silêncio abandonou-me ao desespero de nunca mais saber de ti - sei que irás desaparecer. lentamente. mais dia menos dia. lembrar-me-ei devagar do teu rosto. adormecerei no azul escuro dos teus olhos. até que também eu desapareça para sempre - a pele tão quente. a alma tão fria. a quem darei a minha mão. que corpo apertarei com os meus braços. que coração dará sentido às minhas tão poucas palavras - o céu. já quase púrpura. quase rubro. despede-se também de mim. mas a luz não acaba e por dentro da escuridão brilham estrelas. tão fundas. encontram o meu coração e ali vivem para sempre - por fim a vida conhecerá o amor

quarta-feira, 22 de julho de 2015

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Que é feito do projecto da UE de padronizar os autoclismos na Europa?

Nunca mais se ouviu falar de tal projecto, por isso Hollande lamentava o atraso no federaslismo para facilitar tal processo.
Queriam começar o federalismo pelos urinóis. O Hollande já adjudicou a construção dos ditos cujos a uma empresa amiga, socialista. E promete inaugurá-los no Eliseu. Mas a Merkl pediu um estudo semelhante para as sanitas a adjudicar a uma empresa da Baviera, que também irá inaugurar no Reichtag.
 
Projecto
Projeto da UE pretende obrigar autoclismos de urinois a não gastarem mais de um litro de água
 
O projeto de estandardizar os autoclismos dos Estados membros da União Europeia, revelado em Outubro de 2013, pretendia reduzir o impacto dos autoclismos no ambiente.
O novo padrão de autoclismo na União Europeia seria de cinco litros em sanitas e um litro para urinóis, de acordo com os projetos da UE então revelados na edição online do The Times. Segundo este jornal britânico, a pesquisa para elaborar estes novos critérios tinha durado três anos e foi financiada pela Comissão Europeia. Segundo um porta-voz da UE, o projeto tinha tido um custo de 89.300 euros e a ideia de estandardizar os autoclismos fazem parte de um plano para reduzir o impacto dos autoclismos no ambiente.
"Vamos propor estes critérios na próxima semana. Os Estados membros poderão assim receber um rótulo ecológico europeu nos seus sanitários e urinóis. Estes rótulos permitirão aos consumidores saber quando estão a adquirir um produto "verde", declarou ainda o porta-voz" era a declaração de então.
"Dois elementos parecem afetar o consumo de água dos autoclismos: a sua conceção e o comportamento dos utilizadores", tinham concluído os responsáveis pelo estudo no seu relatório de 122 páginas.
A investigação revelara  hábitos dos europeus. Os três países que mais água usaram nos seus autoclismos, no ano 2010, foram o Reino Unido, ao gastar 1125 milhões de metros cúbicos de água, seguido pela Itália (1074) e pela Alemanha (1021).

Hollande responde à crise da UE com o federalismo!...

Depois do processo da agressão da UE à Grécia ter revelado os males do euro, a degradação da UE, a existência no seu seio de regimes pró-fascistas agindo impunemente contra a democracia e  os democratas, o Presidente francês insiste na tese federalista para acrescentar mais cicuta à tão envenenada Europa.

François Hollande defendeu este domingo a criação de um governo da Zona Euro, ideia já defendida pelo antigo presidente da Comissão Europeia, Jacques Delors. Num artigo publicado no Le Journal du Dimanche, o presidente francês escreveu ainda que a Zona Euro necessita de um orçamento específico e de um parlamento que garanta o "controlo democrático". Para isso, acrescentou, faz falta uma "organização reforçada". A Europa "não pode reduzir-se a regras, mecanismos ou disciplinas".
Desta forma, Hollande, pretenderia retirar mais soberania aos países europeus, remetendo ainda mais questões para um nível supranacional de decisões.


domingo, 19 de julho de 2015

Por duas vezes nos finais dos anos 80 Cavaco Silva recusou-se a condenar os crimes do apartheid e a pedir a libertação de Mandela

A eurodeputada Ana Gomes recordou à SIC-24, a propósito da morte de Nelson Mandela, uma votação das Nações Unidas sobre as crianças vítimas do apartheid quando a socialista estava junto da missão da ONU em Genebra.
«Lembro-me de um episódio em 1989, quando tínhamos uma resolução sobre as crianças vítimas do apartheid apresentada pelo grupo africano. Vergonhosamente, tivemos instruções para votar com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, numa posição contrária a essa resolução», disse à TVI24.
«Foi uma vergonha e tentámos lutar contra isso na delegação. Mas havia muita gente em Portugal que achava que os nossos interesses estavam do lado do apartheid», acrescentou.
 
Esta não é a primeira vez que o então Governo de Cavaco Silva é acusado de votar contra os valores de Nelson Mandela. Já o deputado António Filipe (PCP), numa intervenção no Parlamento em 2008, na altura da comemoração dos 90 anos de Mandela, se referiu a outro episódio.
«Os senhores não querem que se diga que, quando, em 1987, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, com 129 votos, um apelo para a libertação incondicional de Nelson Mandela, os três países que votaram contra foram os Estados Unidos da América, de Reagan, a Grã-Bretanha, de Thatcher, e o governo português, da altura» (liderado por Cavaco Silva), disse, a 11 de julho de 2008.
 


"My foolish heart", por Isabelle Olivier e Youn Sun Nah

sábado, 18 de julho de 2015

Preço justo para os produtores de leite

A Associação de Produtores de Leite de Portugal (APROLEP) tomou há dias posição, que aqui transcrevemos e que dá bem conta da irracionalidade da construção europeia. Foi momento para manifestações de protesto de produtores.
Neste caso acabando com as cotas de importação e inundando o mercado português com excedentes de produções dos grandes países produtores.
E que os patrões das grandes superfícies aproveitam para reduzir as quantidades e os preços pagos aos produtores.
 
A APROLEP, batendo-se pela soberania e segurança alimentar do país, afirma que a produção de leite em Portugal atravessa provavelmente a etapa mais difícil da sua história.
No último ano, o preço do leite ao produtor baixou 25%. Os últimos dados oficiais indicam que em Maio, no continente, registou-se um preço médio de 28,3 cêntimos/ kg de leite ao produtor, bem longe dos 35 cêntimos que pode atingir o custo de produção. Depois disso alguns compradores impuseram novas descidas e largas dezenas de produtores estão com preço médio de 23 cêntimos por litro de leite produzido. Muitos estão desesperados com falta de liquidez, aumentou o abate de animais e registar-se-á certamente o racionamento alimentar em muitas vacarias.
 
Perspectiva-se o abandono da atividade para muitos produtores e o aumento do endividamento para os poucos que resistam.
 
Três meses depois do fim das quotas leiteiras, situação que a União Europeia apresentou com a oportunidade para produzir sem limites, diversos compradores estão a impor aos produtores limites inferiores à quota detida até Março, o que obriga os produtores a travar a fundo para conter a produção e vai limitar ainda mais o já baixo rendimento, pois mantém-se os custos fixos.
 
Esses limites são motivados pelo aumento dos stocks de leite e produtos lácteos transformados e esse aumento de stocks foi consequência do ligeiro aumento de produção de leite em Portugal mas sobretudo da redução do consumo (devido aos mitos e dúvidas infundadas que foram lançadas sobre os benefícios do leite como alimento) e da dificuldade de exportação para mercados tradicionais como Espanha ou Angola.




 
Apesar das dificuldades crescentes na produção de leite nacional, continua a registar-se a importação de leite para marcas brancas, queijo e iogurtes, de que resulta um défice anual de 200 milhões de Euros em produtos lácteos, inaceitável quando temos disponibilidade de leite fresco, próximo e de qualidade reconhecida.
 
Para que o consumidor possa “comprar o que é nosso”, é necessário que as superfícies comerciais disponibilizem e dêem prioridade aos produtos nacionais nas suas prateleiras, substituindo as atuais importações de sobras de produtos lácteos europeus por produto nacional, para que a produção nacional possa sobreviver.
 
Por outro lado, consideramos que compete à indústria de lacticínios apostar em produtos de valor acrescentado, na inovação, no marketing, na partilha de resultados e comunicação com os produtores, na conquista de novos mercados e na fidelização dos consumidores nacionais, dando maior visibilidade ao símbolo PT ou outro equivalente, como o “Portugal sou Eu”, que identifique claramente a origem do leite e produtos lácteos nacionais, como é o caso dos excelentes iogurtes e saborosos queijos que se produzem em Portugal através do trabalho de milhares de pessoas, do prado ao prato.
 
Consideramos ainda que compete ao Governo fiscalizar as importações que ocorrem a preços estranhamente baixos, dinamizar as exportações e atuar como mediador para uma repartição mais justa da margem na cadeia de valor do leite, entre Distribuição, Indústria e Produção. Compete-lhe ainda defender a produção portuguesa em Bruxelas, onde o Comissário Europeu da Agricultura, Phil Hogan, continua a negar a existência de crise na produção de leite da Europa.
 
Recordamos que apesar de sermos cada vez menos produtores produzimos leite de alta qualidade e em quantidade suficiente para as necessidades do país, pelo que renovamos o apelo ao consumo de leite e produtos lácteos nacionais, com o símbolo PT, porque só essa opção poderá permitir a independência e segurança alimentar do nosso país.

Prostituição: opção ou exploração?

«Prostituição. Opção ou exploração?» foi o tema do debate promovido pela Comissão Concelhia de Faro do PCP, no passado dia 10. Participaram Inês Fontinha, que durante 40 anos presidiu à Associação O Ninho, e Fernanda Mateus, da Comissão Política do Comité Central do Partido.
Tendo como ponto de partida as falsas dicotomias que têm sido veiculadas, entre a suposta existência de uma prostituição forçada associada ao tráfico de mulheres e crianças e uma prostituição por opção «livre» e «voluntária», o debate centrou-se na crítica a estas teses, que visam a legalização da prostituição – ou seja, a legitimação de um negócio sórdido que vive da brutal exploração do corpo e da dignidade das mulheres e a transformação do proxeneta em empresário.

Estas concepções foram denunciadas pelas oradoras, que lembraram que a prostituição em Portugal está a aumentar na medida exacta em que cresce a espiral de empobrecimento e se aprofunda a pobreza e as desigualdades. Inês Fontinha lembrou que no contacto que manteve com mais de oito mil mulheres prostituídas não conheceu nenhuma que o tenha feito por opção. Fernanda Mateus lembrou as propostas do PCP sobre os problemas e direitos das mulheres.
        

"Neruda" pelos Rupa & April Fishes


sexta-feira, 17 de julho de 2015

Ainda a propósito da questão grega

Dia 15 durante a discussão e votação do novo resgate da Grécia
A questão grega no que respeita às expectativas que se podem tirar desta União, desta construção e instrumentalização do euro, destes dirigentes, desta interligação e interdependência entre instituições comunitárias e grandes multinacionais, deu-nos nestes dias muitas lições práticas para, com o povo grego continuarmos o combate por uma Europa dos Povos.
Neste quadro actual, que sofreu um grande embate nestes dias pela luta dos gregos, a resistência do governo grego até à opção de Tsipras por este acordo de Bruxelas, e a solidariedade prestada em muitos países, não é aceitável para a esquerda continuar a apoiar a manutenção no euro da Grécia (os gregos que decidam) e dos outros países. É certo que os dirigentes da Alemanha, da Áustria e da Finlândia querem pôr a Grécia fora do euro e que até o FMI vem falar perdão da dívida. Mas não são os interesses do povo grego que animam estas atitudes (podemos falar destes significados noutro momento).
Havendo na Grécia desilusões com comportamentos individuais de certos dirigentes, que estão a reflectir-se em divisões semelhantes noutros países, entendo que não deveria ser por aí que as atitudes de esquerda devam ir, antes deveriam continuar a valorizar o movimento destes cinco meses, pelo que de muito importante ele deu para fazer tremer a deriva antidemocrática da UE, para gerar entusiasmos, para abrir novas possibilidades.
As lutas dos trabalhadores em todos os países contra a austeridade, a firmeza das camadas médias na sua combatividade, são, como em muitas outras situações, absolutamente necessárias para a consistência das lutas.
Noutros países a questão da saída do euro só não está na agenda dos respectivos governos porque estes estão disponíveis para apoiar uma Europa que fosse uma espécie de IV Reich. Têm que ser agitados, sabendo nós que não importa dizê-lo apenas, mais importa fazê-lo.

Frase de fim-de-semana, por Jorge

"... though those that are
 betray'd do feel the treason sharply,
yet the traitor stands
in worse case of woe"
"... embora os que são traídos
 sintam duramente
a traição, é contudo o traidor
o que mais desgraçado fica"

W. Shakespeare (1564-1616)

em Cimbelino, rei da Bretanha

terça-feira, 14 de julho de 2015

in " O IV Reich" de José Goulão

"E para que o fundo de garantia da “ajuda” à Grécia construído a partir das privatizações do que ainda resta no país não descarrile, por detrás da ideia e da execução estão instituições financeiras alemãs tituladas por gente idónea como o senhor Schauble e o senhor Sigmar Gabriel, o chefe dos sociais- democratas, aliás os inventores da engenhosa estratégia de privatização da RDA".
 
ler o "IV Reich" aqui.  

Por detrás da dívida grega, por Thierry Meyssan


Nota inicial do editor - Não se admirem os meus leitores e amigos com o peso que dou à Grécia no que aqui escrevo. Acho que o que se está ali a passar, para o bem e para o mal, é muito relevante também para nós mas também sobre a luz que lança sobre os seus actores.

O debate actual sobre a dívida grega deu lugar a todo o tipo de ameaças, primeiro contra o governo Tsípras, depois contra os eleitores gregos. Abstendo-se de entrar numa discussão sobre a parte odiosa desta dívida, Thierry Meyssan analisa aqui a campanha internacional contra a saída da Grécia da zona euro. Ele lança luz sobre o projecto histórico da União e do euro, tal como foi formulado, em 1946, por Churchill e Truman, para acabar por concluir que a Grécia está hoje em dia armadilhada pelo ambiente geo-político internacional e não pela sua situação económica.
 
Importa recordar que o Jean-Claude Juncker, que se indignou pela convocação do referendo grego, que qualificou de «traição», foi o mesmo que se viu  forçado a demitir-se das suas funções de Primeiro-ministro do Luxemburgo quando se provou a sua pertença à rede de espionagem Gládio, da Aliança Atlântica. Um ano depois… tornava-se presidente da Comissão Europeia. Eles circulam, claro...
 

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A direcção do Syriza quer entregar a Grécia à Alemanha ou evitar o "mal pior"?

Não me refugio numa crítica sem conhecer os fundamentos do que posso afirmar.
Nem mesmo as considerações categóricas de Marisa Matias, do Bloco, hoje, me sossegam. Naturalmente que MM tem canais privilegiados de informação que não tenho. Mas há considerações que têm que ser feitas.
Como não estendi o tapete ao Syriza, não lho vou tirar. Não tenho voto na matéria. Isso cabe aos gregos.
Mas esta esquerda deverá acertar agulhas ideológicas e zelar pelos comportamentos éticos na política, entendida como falar verdade ao povo e respeitar os seus sentimentos e vontades expressas.
 
 
 
Não partilho a ideia de que a Grécia deve fazer questão na manutenção no euro e na União Europeia a troco da austeridade. A obsessão de alguma esquerda em manter o euro e a UE, quiçá para ter isso como traço distintivo na esquerda,  procura vir a demonstrar, com o seu falhanço, que não funcionam, que vão soçobrar e que temos que encontrar alternativas? Depois, no meio dos cacos?
 
A austeridade leva ao desastre social, político e económico. Os 35 mil milhões de euros que Tsipras disse obter para o crescimento, vai ser canalizado por quem? Para quem? Com que resultados positivos avaliados no emprego, no crescimento do consumo interno e substituição de importações?
 
Que parte da dívida vai poder com os seus resultados  abater?
 
E a reestruturação da dívida, entendida apenas como dilatação de eventuais prazos e taxas, pode levar a uma dívida aceitável daqui por quantas décadas?
 
E os activos do país vão ou não ter, uma comissão, que escapa aos órgãos do estado, para acionar privatizações de empresas muito lucrativa?. Não é humilhação excessiva, falta de confiança no governo grego por parte dos "parceiros europeus"? Os sindicatos vão participar?
 
A receita adicional do aumento do IVA de 13 para 23%, a reconsiderar em 2016, vai para abater a dívida?
 
O Siryza vai proceder ao afastamento dos militantes, ministros e deputados que não aceitarem este acordo?

Com o próximo estoiro da Holanda, a União Europeia passará a nova fase da sua desagregação

O comentador do Economist, Matthew Lynn, refere hoje neste jornal  que a Holanda é um dos países mais endividados do mundo. Está mergulhada na recessão e demonstra poucos sinais de estar a sair dela. A crise do euro arrasta-se há três anos e até agora só tinha infetado os países periféricos da moeda única. A Holanda, no entanto, é um membro central tanto da UE quanto do euro. Se não puder sobreviver na zona euro, para o autor estará tudo acabado.
 
O país sempre foi um dos mais prósperos e estáveis de Europa, além de um dos maiores defensores da UE. Foi membro fundador da união e um dos partidários mais entusiastas do lançamento da moeda única. Continuando a citar Lynn, "Com uma economia rica, orientada para as exportações e um grande número de multinacionais de sucesso, supunha-se que tinha tudo a ganhar com a criação da economia única que nasceria com a introdução satisfatória do euro. Em vez disso, começou a interpretar um guião tristemente conhecido. Está a estourar do mesmo modo que a Irlanda, a Grécia e Portugal, salvo que o rastilho é um pouco mais longo".
 
 
Bolha imobiliária
 
Segundo Lynn, os juros baixos, que antes do mais respondem aos interesses da economia alemã, e a existência de muito capital barato criaram uma bolha imobiliária e a explosão da dívida. Desde o lançamento da moeda única até o pico do mercado, o preço da habitação na Holanda duplicou, convertendo-se num dos mercados mais sobreaquecidos do mundo. Agora explodiu estrondosamente. Os preços da habitação caem com a mesma velocidade que os da Flórida quando murchou o auge imobiliário americano.
Atualmente, os preços estão 16,6% mais baixos do que estavam no ponto mais alto da bolha de 2008, e a associação nacional de agentes imobiliários prevê outra queda de 7% este ano. A não ser que tenha comprado a sua casa no século passado, agora valerá menos do que pagou e inclusive menos ainda do que pediu emprestado por ela.
 
De acordo com o comentador, "os holandeses afundam-se num mar de dívidas. A dívida dos lares está acima dos 250%, é maior ainda que a da Irlanda, e 2,5 vezes o nível da da Grécia. O governo já teve de resgatar um banco e, com preços da moradia em queda contínua, o mais provável é que o sigam muitos mais. Os bancos holandeses têm 650 mil milhões de euros pendentes num sector imobiliário que perde valor a toda a velocidade. Se há um facto demonstrado sobre os mercados financeiros é que quando os mercados imobiliários se afundam, o sistema financeiro não se faz esperar".
 
Para obter algum dinheiro extra, as pessoas comem e vendem as sobras. É o exercício pleno da criatividade e do completo aproveitamento dos alimentos. Também cresce a procura por bares que permitem que os clientes levem de casa a própria refeição.
Nos “bancos de alimentos”, há filas. E uma em cada seis famílias está com dificuldades para pagar as contas dos supermercados.Este não é o cenário da Holanda que tínhamos.
 
 
 
 Recessão profunda
 
Segundo Lynn "As agências de rating (que não costumam ser as primeiras a estar a par dos últimos acontecimentos) já se começam a dar conta. Em fevereiro, a Fitch rebaixou a qualificação estável da dívida holandesa, que continua com o seu triplo A, ainda que só por um fio. A agência culpou a queda dos preços da moradia, o aumento da dívida estatal e a estabilidade do sistema bancário (a mesma mistura tóxica de outros países da eurozona afetados pela crise).
A economia afundou-se na recessão. O desemprego aumenta e atinge máximos de há duas décadas. O total de desempregados duplicou em apenas dois anos, e em março a taxa de desemprego passou de 7,7% para 8,1% (uma taxa de aumento ainda mais rápida que a do Chipre). O FMI prevê que a economia vai encolher 0,5% em 2013, mas os prognósticos têm o mau costume de ser otimistas. O governo não cumpre os seus défices orçamentais, apesar de ter imposto medidas severas de austeridade em outubro." Como outros países da eurozona, diz ainda Lynn, a Holanda parece encerrada num "círculo vicioso de desemprego em aumento e rendimentos fiscais em queda, o que conduz a ainda mais austeridade e a mais cortes e perda de emprego. Quando um país entra nesse comboio, custa muito a sair dele (sobretudo dentro das fronteiras do euro)".
 
A Holanda destacou-se em ser um firme aliado da imposição de políticas de austeridade, essa atitude está a atenuar-se.
 
Continuando a citar Lynn, "Os colapsos da zona euro ocorreram sempre na periferia da divisa. Eram países marginais e os seus problemas eram apresentados como acidentes, não como prova das falhas sistémicas da forma como  a moeda foi estruturada. Os gregos gastavam demasiado. Os irlandeses deixaram que o seu mercado imobiliário se descontrolasse. Os italianos sempre tiveram demasiada dívida. Para os holandeses não há nenhuma desculpa: eles obedeceram a todas as regras.
 
Desde o início ficou claro que a crise do euro chegaria à sua fase terminal quando atingisse o centro. Muitos analistas supunham que seria a França e, ainda que França não esteja exatamente isenta de problemas (o desemprego cresce e o governo faz o que pode, retirando competitividade à economia), não deixa de continuar a ser um país rico. As suas dívidas serão altas mas não estão fora de controlo nem começaram a ameaçar a estabilidade do sistema bancário. A Holanda está a chegar a esse ponto".
 
É provável que em dois anos, a Holanda vá ao tapete e, então, a União Europeia passará a nova fase da sua desagregação.
 
Matthew Lynn é diretor executivo da consultora londrina Strategy Economics.
 
Publicado no Economist,

domingo, 12 de julho de 2015

Hoje a UE acentuou a humilhação à Grécia. Solidariedade com o povo grego!



A exibição de  desconfiança em relação ao governo grego, a exigência antes de qualquer acordo de que o Parlamento grego decida novos cortes nos salários e pensões e direitos associados (a que o Eurogrupo chama “reformas”), a privatização da empresa pública da electricidade, o não aceitar cortes parciais da dívida (haircuts), a deslocação para a frente da discussão de alterações nas taxas e maturidades, o impedimento da Grécia sair da União Europeia, depois da saída do euro, a insinuação da formação de novo governo, são elucidativos da escalada da reunião de hoje do segundo dia de reuniões do Eurogrupo.
A UE qui elevar o patamar de humilhação da Grécia. Veremos como reagem os gregos e o governo que elegeram para os salvar da austeridade que a troika e os governos o PASOK e Nova Democracia, construíram durante os anos 2010-2015.

A dívida pública grega é um mega esquema de corrupção

O resultado desta auditoria à dívida pública é revelador do papel do sistema bancário grego, sob os governos do PASOK e da Nova Democracia, em fazer crescer uma dívida pública sem benefício para a Grécia. Os acordos, que revelam só poder assentar numa verdadeira corrupção em larga escala, ainda exigiam que a Grécia tivesse que transformar os seus activos públicos em forma de pagamento dessa dívida e correspondentes encargos, isto é em privatizações que só poderiam ser também em larga escala...
Ter em atenção que "billions" deve ser traduzido por "milhares de milhões e não biliões.



sábado, 11 de julho de 2015

Frase de fim-de-semana, por Jorge



"Trás a névoa vem o sol /
trás um tempo vem outro"
Jorge Ferreira de Vasconcellos
cortesão, escritor e comediógrafo,
1515-1585 
in
"Comédia Eufrosina"
- Coimbra, 1560

Reviravolta do governo não agrada ao gregos que votaram contra mais austeridade

O governo grego entrou num campo de cedência em matéria de agravamento da austeridade, apesar de serem positivas muitas outras medidas propostas no plano de resgate que avançou.
Atenas enviou ontem aos credores as suas propostas em troca de um resgate financeiro de 53,5 mil milhões de euros, que foi aprovado em plenário do Parlamento grego nesta madrugada, com uma negociação com a Nova Democracia para obter os seus votos que lhe foram negados pelos sectores mais à esquerda do Sirysa.


O Eurogrupo está em reunião para avaliar as propostas do governo grego, mas à entrada, o presidente do Eurogrupo foi já ameaçando com muitas dificuldades.

Parece haver uma larga rejeição destas medidas na Grécia, tanto mais que violam o resultado do referendo. Também não se percebe o porquê desta reviravolta. Houve ameaças novas de saída não só do euro como da própria UE? O recurso ao apoio financeiro para resolver os problemas imediatos da Grécia esgotava-se num novo plano de resgate? Que ameaças foram recebidas sobre o eventual recurso a um empréstimo russo (que o “Ocidente” quer evitar por considerações de geo-estratégia)? Era esta a única forma de salvar os interesses do povo grego?
Depois dos deputados de Atenas, o documento tem de ser validado por outros parlamentos, incluindo o alemão.

O documento é omisso em relação ao perdão da dívida, impagável e castradora de qualquer política de crescimento económico. Se bem que Tsipras tenha referido ontem no parlamento que as novas propostas gregas tinham desbloqueado a discussão não só das taxas dos empréstimos que contribuíram para a dívida, como dos prazos e do perdão de parte da dívida. Passos Coelho, o presidente do Eurogrupo, o governo alemão estão entre os firmes opositores a tal reestruturação.
Num documento de 20 páginas, o executivo de Alexis Tsipras requer o acesso a ajuda financeira ao abrigo do Mecanismo Europeu de Estabilidade, comprometendo-se a pôr em prática a partir de segunda-feira uma série de medidas de natureza fiscal e nas pensões. Segundo o Correio da Manhã essas medidas são, em síntese:

Orçamento rectificativo para 2015 e estratégia fiscal 2016-2019 para chegar a 2018 com um excedente primário de 3,5% do PIB

1) Reforma do IVA:
  • taxa generalizada de 23% incluindo restauração

  • taxa de 13% para alimentação básica, energia, hotéis e água

  • taxa super-reduzida de 6% para medicamentos, livros e espectáculos, medidas que serão revistas em 2016.

  • Suspensão gradual dos benefícios fiscais para as ilhas, começando pelas mais ricas e turísticas, até ao final de 2016. A partir daí os habitantes mais pobres terão acesso a medidas de compensação. 

2) Medidas estruturais orçamentais:
  • aumentar o IRC de 26% para 28%;
  • aumentar a sobretaxa de solidariedade;
  • ajustar taxas sobre propriedades para garantir a receita fiscal prevista; combate à fraude; melhorar a transparência orçamental; 
  • simplificar tabela de IRS;
  • reduzir tratamento diferenciado da indústria armadora; aumentar impostos sobre embarcações de recreio e luxo;
  • reduzir o preço dos medicamentos em 32,5% e 50% caso se tratem de medicamentos
    genéricos ou não;
  • reduzir preço dos exames de diagnóstico;
  • reduzir o tecto máximo de gastos com defesa em 100 milhões de euros este ano e 200 milhões no ano que vem. Contra uma redução de 400 milhões proposta pelos credores;
  • introduzir taxa sobre a publicidade televisiva, vender licenças de sinal de televisão, gerar receitas das licenças de 4G e 5G
  • alargar taxa de 30% a terminais de lotaria electrónica. 
 3) Reforma de pensões:

Poupança entre 0,25% e 0,5% este ano e 1% no próximo e seguintes, através de: 

  • desincentivo às reformas antecipadas; 
  • passar a idade de reforma para os 67 anos até 2022; ou 62 com 40 anos de contribuições;
  • aumentar as contribuições dos pensionistas para a saúde de 4% para 6%;
  • subsídio para as pensões mais baixas (EKAS) deve terminar no final de 2020, altura em que está prevista a criação de novas ajudas;
  • eliminam-se também, gradualmente, as pensões complementares, até dezembro de 2019;
  • a partir de janeiro de 2016, legislar no sentido global de atingir a sustentabilidade do sistema. 

4) Função Pública, Justiça e luta anti-corrupção

  • reformular a grelha salarial do Estado a partir de 1 de Janeiro; 
  • alinhar suplementos pelas práticas europeias;
  • promover a mobilidade
  • .criar sistema de avaliação de desempenho de funcionários públicos;
  • reformar o Código Civil;
  • limitar riscos de corrupção nos concursos público;
  • publicar uma análise estatística da corrupção no país (em particular na saúde e trabalho no sector público). 

5) Fisco
  • criar uma agência de impostos independente; 
  • remover o tecto de 25% sobre salários e pensões em caso de penhoras e tecto de 1.500 euros nos vencimento;
  • melhorar o sistema informático da administração fiscal;
  • combater o contrabando de combustíveis;
  • identificação de depósitos não declarados na banca grega e estrangeira; levantamento sigilo bancário em casos específicos, trocar informações com países europeus sobre bens detidos por gregos, acabar com amnistias;
  • promover o uso de pagamentos electrónicos.  

6) Sector Financeiro: 
  • adoptar alterações no caso de insolvência para separar os casos de falsa falência do caso de devedores com boa-fé.   

7) Mercado de trabalho: 
  • revisão e reforma das leis laborais tendo em conta as melhores práticas europeias;  
  • negociação entre o governo e os parceiros sociais deve estar concluída até ao fim do ano;  
  • combate ao trabalho não declarado  

8) Mercado de produtos e serviços
 
  • liberalizar acesso a profissões (engenheiros, advogados, oficiais de justiça); 
  • desregulamentar o mercado de alojamento turístico;
  • reduzir burocracia e encargos sobre as empresas com ajuda da OCDE;
  • criar balcões únicos;
  • privatizar a empresa de distribuição de electricidade.

 9) Privatizações:
  • vender todos os activos detidos pelo fundo público HRADF; 
  • fim da privatização dos aeroportos regionais e dos portos do Pireu e Salónica - medida que já antes estava prevista e que já tem potenciais interessados, oriundos da China.
  • Neste capítulo, o governo grego não se compromete com mais nenhumas privatizações.