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quarta-feira, 27 de abril de 2016

A crise dos refugiados para a Europa


Refugiados, imigração de substituição?
Em 2001, a Divisão da População das Nações Unidas publicou um estudo sobre as migrações de substituição, isto é as carências de imigrações vindas de outros países para evitar a diminuição e envelhecimento da população de um grande número de países que apresentavam taxas de fecundidade e de mortalidade reduzidas, a partir de um estudo em oito países (Alemanha, EUA, Rússia, França, Itália, Japão, Reino Unido e Coreia do Sul) e duas regiões (Europa e União Europeia), e fazendo projeções.
A ONU concluía então que:
·         Durante os 50 anos seguintes, a população da maioria dos países desenvolvidos diminuiria e envelheceria em resultado dos níveis de fecundidade e mortalidade;

·         É necessário manter certos níveis de imigração para evitar o decréscimo populacional em todas as regiões e países referidos no estudo.
Porém
·         O número de imigrantes necessários para evitar o decréscimo da população, é consideravelmente maior do que o projectado pela ONU;

·         O número de imigrantes necessários para evitar o decréscimo da população activa é mais elevado do que o necessário para evitar o decréscimo global dessa população e, em termos relativos, a Alemanha e a Itália precisariam de um número mais elevado de imigrantes para manter o tamanho da sua população activa;

·          Os níveis de imigração necessários para evitar o envelhecimento da população são várias vezes mais elevados do que os requeridos para evitar o decréscimo da população total.

Na ausência de imigração, os quocientes de dependência potencial podiam manter-se nos níveis actuais se se deslocasse a idade de reforma aproximadamente para os 75 anos. Esta seria a resposta que se conformaria com as políticas que permitiram que aqui se chegasse.

O neoliberalismo provocou o decréscimo acentuado da população pelo decréscimo dos níveis de vida (salários, desregulamentação do trabalho, na sua precarização, na exigência e deslocações de residências, pensões e apoios sociais às populações, educação, saúde, segurança social, preços dos transportes, entre outros, com consequências evidentes na fuga de diplomados para outros países, mais ricos, redução do número de filhos por casal, etc..

Depois dos atentados às Twin Towers em 2001, o Pentágono e a NATO usaram isso para justificar perante a comunidade internacional o blitzkrieg contra o Médio Oriente, começando pela invasão do Afeganistão, e depois do Iraque. Criaram os talibans para se oporem ao regime democrático de Kabul e, depois, à discutível presença militar soviética, mesmo que a pedido do governo legítimo. Foram criados outros grupos militarizados com formação terrorista que foram usando diferentes designações ao longo dos anos.

A partir de 2011 foi a chamada “primavera árabe” que levou à queda dos regimes do Egito, Tunísia, Líbia, Iémen e Bahrein. Só na Síria não conseguiram. Têm-no tentado até ao momento, socorrendo-se de países como a Arábia Saudita, Turquia e Israel.

A questão dos refugiados na Europa: factos, teorias e necessidades prementes
A questão dos refugiados em direção à Europa nestes dois últimos anos tem assumido grandes proporções, passagem de responsabilidades para terceiros de alguns dos que têm a responsabilidade nos acontecimentos que estão na sua origem, declarações comunitárias ineficazes, autoridades aduaneiras incapazes de despachar com celeridade milhares de casos, condições de acolhimento provisório muito deficientes e, mais recentemente, um acordo vergonhoso com o ditador turco – um dos principais responsáveis por esse êxodo pelo apoio continuado que deu ao Daesh na Síria.

Até se criou um organismo, o Frontex. O orçamento do Frontex, apesar de ter sido aumentado depois do início de funções, espelha bem a hipocrisia da União Europeia. A agência funciona em dois pisos sem condições num arranha-céus de Varsóvia. A contrastar com esta realidade, desenvolveu-se, dentro do Frontex, um dispositivo chamado Eurosur que concentra a maior parte do investimento em drones, helicópteros e satélites, destinados a rastrear pessoas que tentam migrar para escapar da “opressão” e da “miséria” (agressão e grandes carências, digo eu) no seu país de origem.
Sobre esta questão levantam-se inúmeras perguntas e algumas teorias da conspiração, para não falar das movimentações das organizações de natureza fascista, cavalgando este problema para fins eleitorais e criação de situações de insegurança interna.
Há factos com consequências indesmentíveis
As chamadas “primaveras árabes”, uma promovida com intervenção militar directa da NATO na Líbia, e outras através da organização pelos serviços de informação ocidentais de golpes de estado com movimentações populares associadas na Tunísia e no Egipto. A porta aberta a refugiados do Mali …?Ou outras intervenções como a secessão do Uganda do Sul, prolongada em acções de guerra civil para o regresso do antigo ditador. A continuada intervenção militar pela Arábia Saudita e uma coligação de países árabes do Golfo no Iémen, na Somália e na Eritreia (?). Os de maior envergadura resultam da guerra contra a Síria por parte de organizações com apoio ocidental para derrubar pela força Bashar Al-Assad ou das continuadas agressões da Al Qaeda e da Al-Nustra no Iraque.

 
Uma primeira teoria da conspiração
Nicolas Bonnal (1) analisou no diário Boulevard Voltaire, as declarações de um agente de informações austríaco segundo as quais o surto dos refugiados resultantes de intervenções dos EUA no Médio Oriente teve como objectivo uma verdadeira invasão da Europa.

E, fazendo uma retrospectiva histórica, referiu que desde os mandatos de 1913 a 1921 do presidente norte-americano Woodrow Wilson, os EUA, com o apoio da França e do Reino Unido, realizaram agressões em intervenções a que atribuíram um carácter messiânico, garantindo uma moeda de reserva, que bem poderiam ter aproveitado para revelar ser a forma dos EUA não pagarem a consequências das suas guerras.

Fizeram-no provocando situações caóticas no continente africano e, depois, viraram-se para o europeu. E põem, assim, em prática os princípios maquiavélicos de Leo Strauss (2) e de estrategas ao estilo de Wolfowitz (3) que encontram políticos europeus que acabam por estar de acordo em governar introduzindo situações caóticas e privar esses países das suas realidades humanas e das suas identidades históricas e culturais, acabando por os converter em territórios para instalação de bases, com os territórios vazios, povoados de centros de refugiados ou de drogados.
Hungria fecha fronteira com a Sérvia para impedir chegada de refugiados
 Outra teoria

Um dos principais problemas da política de imigração da Europa decorreria, segundo Slavoj Zizeck (4), de uma perspectiva neocolonial que se foca no “fardo do homem branco” e da “culpa”, negando quaisquer tipo de responsabilidades aos refugiados nesta crise.

Os que fingem ser os mais abertos para os imigrantes ou refugiados seriam os que os tratam efectivamente de uma forma abertamente racista.

Quando sabemos estar criado um novo “eixo do mal” que integra a Turquia, a Arábia Saudita e Israel, com múltiplos recursos e agindo particularmente contra os seus opositores xiitas, é espantoso o acordo entre a UE e a Turquia. Serem entregues à Turquia 6,8 mil milhões de dólares para voltar a receber os migrantes que chegam à Grécia, e acabaremos vistos para cidadãos turcos em viagem para a Europa a partir de Junho constitui uma vergonha

O acordo não pode ignorar que a Turquia finge combater o terror na região pois a sua única acção militar é para combater os curdos turcos, que com características diferentes são os únicos que combatem o Daesh no norte da Síria com conselheiros militares dos EUA.

O futuro é negro para a democracia na Turquia. Pela perseguição aos curdos como para os que, em geral, se opõem a Erdogan.

Zizek elaborou um novo conceito para lidar com este problema, que designou por “militarização”, não do espaço europeu, mas das zonas quentes de emigração em guerra. Na sua opinião, os Estados europeus devem estabelecer uma base militar para "organizar pontes aéreas regulares da imigração" da Síria e da Líbia.

E designou a situação actual como "um fiasco político da Europa...um escândalo", acrescentando que os imigrantes "apenas estão a fluir de forma desordenada." Para ele, os refugiados devem ser ajudados, mas não desta forma caótica. Se as coisas continuarem como estão, daqui a cinco anos a Europa não será mais Europa, não no sentido de se dar uma islamização, mas no sentido da predominância da população anti-imigrante”.

Por agora, as políticas da UE estão a criar divisões entre vizinhos europeus. Esses países da Europa Ocidental estão jogando jogos sujos. A chanceler alemã, Angela Merkel, mostrou-se muito aberta à imigração, mas depois, quando havia muitos refugiados, não quis fazer o trabalho sujo de dizer “stop”. Em vez disso, foi deixado aos países dos Balcãs fazer esse trabalho tão discreto quanto possível de parar o fluxo de refugiados.

 

(1)  Escritor e ensaísta francês.
(2)  Leo Strauss é um filósofo norte-americano de origem alemã, principal inspirador da corrente neocon  (neoconservadores) que dominou durante anos uma parte significativa do pensamento político norte-americano (gravitando, não apenas em redor da Administração Bush, como por vezes surge referenciado, antes se posicionando em vários campos, incluindo o democrata).
(3)  Professor e político norte-americano. Ex-presidente do Banco Mundial, arquiteto da política externa do governo de George W. Bush e da Guerra do Iraque.
(4) Filósofo esloveno, psicanalista marxista, investigador sénior do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, diretor internacional do Instituto de Humanidades Birkbeck da Universidade de Londres.