sexta-feira, 29 de julho de 2016

O povo sírio não deixará transformar-se numa cópia do que sucedeu à Líbia… Bachar al-Jaafari, representante da Síria em recente reunião do Conselho de Segurança da ONU




















Pela sua importância publico-o na íntegra
A.A.

Hoje, o Conselho de Segurança discutiu o relatório 28 do Secretário-Geral da ONU sobre a situação humanitária na Síria. Para este efeito, baseou-se em quatro sucessivas resoluções adoptadas desde que foi designada como "a crise síria":  resoluções 2139, 2165, 2191 e 2258.

Apesar destas resoluções, a situação humanitária na Síria não avançou na direção esperada e os sírios estão, portanto, no seu direito de perguntar sobre as razões que impedem acabar com o que sofrem, depois de quase cinco anos e meio de uma guerra terrorista internacional contra o meu país pelos governos de vários países, alguns dos quais são Estados-Membros do Conselho.

O representante de Angola estava certo quando  fez a pergunta: "Por que não pedir as partes interessadas, regionais e internacionais, sobre sua responsabilidade na perpetuação desta crise humanitária? "; a questão-chave neste caso!

Sr. Presidente,

Acabar com o sofrimento dos sírios de forma duradoura não pode ser alcançado deixando-o arrastar-se e sujeito à chantagem política empreendida por algumas capitais para impor ao povo sírio de escolher entre dois males: ou continuam a sofrer o terrorismo ou resolvem confiar o país ao caos.

Acabar com este sofrimento não se pode conseguir escrevendo dezenas de relatórios; ou por meio de reuniões regulares; ou através da organização de convenções espetaculares; nem mesmo pela prestação de ajuda humanitária a uma região particular, embora reconheçamos a sua utilidade e que o governo sírio assegura o seu transporte para todas as partes do país; nem as ações da "coligação" liderada pelos Estados Unidos, levando à destruição de silos de grãos, infra-estruturas e sistemas elétricos que custaram ao povo sírio despesas e esforços dificilmente recompensáveis; ou jogar sobre a geografia do sangue sírio; nem ainda, através da formação de coligações de duvidosas intenções em  erradicar o terrorismo; mas passa por uma luta séria contra o terrorismo assim como o tem feito governo sírio em cooperação com a Federação Russa, e outros amigos, na sequência de um pedido formal das autoridades sírias, o que ajudou a melhorar a situação em muitas regiões da Síria.

A solução é bem conhecido por todos, pelo Conselho e pelo Sr. O'Brien, e consiste em tratar as razões que estão por detrás desta crise imposta ao povo sírio, porque é uma "crise imposta" e não com origem no povo sírio.

Alguns membros do Conselho continuam, de forma voluntária e arrogante a ignorar a verdadeira razão que levou ao surgimento desta crise humanitária eao  seu agravamento, tal como continuam a dizer desconhecer as razões para a saída  de um número impressionante de sírios para as áreas controladas pelo Estado sírio ou para o exterior. A razão é o terrorismo, senhoras e senhores. Terrorismo!

Quanto a Aleppo, desde o início desta crise, informamos este Conselho que a cidade não tinha sofrido qualquer acto terrorista no primeiro ano e meio. Em nome do governo sírio, que solicitou a vossa ajuda para pressionar o governo turco a proibir os terroristas viessem para esta cidade. Mas ninguém respondeu. Isto levou ao surgimento de dezenas de milhares de terroristas "geneticamente moderados" de todo o mundo e apelidada de "oposição moderada" ou "grupos armados não-estatais." Quanto ao caminho para a Castello, quero esclarecer que o governo sírio não o "cortou", mas que tenta abrir, livrando-se  dos terroristas que impedem a entrega de ajuda humanitária desta forma e continuar a pedi-la a partir  da Turquia.

O terrorismo é a principal razão para esta crise humanitária. A outra razão é a paralisia de facto da vida econômica em resultado das "medidas coercivas unilaterais". Por isso, a solução duradoura reside na luta contra o terrorismo através da aplicação das deliberações tomadas por este mesmo Conselho e a coordenação e  plena cooperação com o governo sírio, longe da política dos "dois pesos, duas medidas" e da hipocrisia praticada por alguns na sua chamada luta contra o terrorismo, longe de transformação da Síria  num íman que atraia o terrorismo internacional takfirista.

A delegada dos Estados Unidos falou sobre a criança de doze anos do campo de refugiados palestinianos em Aleppo, Handarat, decapitada por elementos do "Harakat al-Nour al-Din Zenki", um movimento cujo nome indica, os que conhecem a história da região, ter origem turca. Descreveu os assassinos como "rebels fighters." Não  terroristas, mas combatentes rebeldes! O mesmo vale para as outras organizações terroristas como a Jaich al-Islam, Ahrar al-Sham, Jaich al Fath, etc.

Temos de parar com o apoio prestado pelo governo turco, Arábia Saudita, Qatar e outros países àss organizações terroristas armadas, que expandiram o seu terrorismo a cidades e aldeias da Síria, que cometem os crimes mais horrendos contra o seu povo, usando seres humanos como escudos.
Assim como devemos parar de tentar legitimar abusos destas organizações terroristas usando designações como "organizações pacíficas", "organizações armadas moderadas" ou "grupos armados não-estatais"; que, como  sabem, são extremamente neutras  e  não correspondem em absoluto às exigências de suas próprias resoluções em matéria de luta contra o terrorismo.

Não chamar o terrorismo pelo seu verdadeiro nome envia a milhares de terroristas uma mensagem errada, dizendo-lhes que o seu terrorismo é legítimo, desde que ele desafie a autoridade do Estado sírio, destrua as suas infra-estruturas e instituições; que pode abrir a porta para mais sofrimento  material e humano.

Ultimamente [19 de julho], os aviões de guerra franceses atacaram a aldeia de Al-Tokhar na circunscrição de Aleppo, matando 164 civis capturados como reféns pelo Daesh. Na verdade, os terroristas tinham recebido ordens para os levar para fora da cidade, assim que ouviram que o presidente francês queria vingança pelo que aconteceu em Nice. E o presidente francês, queria vingança pelo que aconteceu em Nice, matando 164 civis na aldeia de Al-Tokhar Síria. Mais do dobro das vítimas do terrorista de Nice! Mas  quem utiliza os civis como escudos humanos? Não é Daech? E quem matou civis sob o pretexto da luta contra o Daesh? Não foi a aviação militar francesa?

A forças aérea dos EUA fazem o mesmo e há dezenas de outros exemplos que vos  confiamos em cartas formais distribuídas e redistribuídas repetidamente. Eu não tenho o talento do delegado dos Estados Unidos para lhes dar-lhe nomes. Temos milhões de nomes e, se eu os tivesse que ler aqui para vocês,  levaria semanas antes de poder dar-vos a lista de todas as vítimas da Síria por causa de abusos por parte de organizações terroristas.

Por que não se qualifica como "oposição armada moderada" quem atacou o Bataclan, Nice ou o Charlie Hebdo em Paris? Por que é que o terrorista que actua  na Síria é qualificado como "oposição  moderada", e só é terrorista quem comete actos terroristas, que condenamos, em França, Estados Unidos ou noutros  lugares?

O terrorismo é terrorismo! Já dissemos isso há cinco anos e repetimos. Não há terrorismo hallal terrorismo e terrorismo haram.

O terrorismo é terrorismo! Somos nós que suportamos este terrorismo. É o nosso povo que resiste esse terrorismo.

Sr. Presidente,

A melhor prova do que digo é precisamente o fato de que esse movimento de Nur al-Din al-Zangi - que tão terrivelmente e publicamente decapitou esta criança palestina de 12 anos atrás alguns dias - ser descrito como oposição armada moderada pelos governos, incluindo dos membros deste Conselho, além de ser suportado por esses mesmos governos com armas, dinheiro e cobertura mediática  desde o final de 2011.

As práticas deste movimento terrorista não são diferentes dos de outras organizações terroristas. Agradou a alguns membros da ONU, fora e dentro deste Conselho, qualificar como "oposição armada moderada" grupos  como Jaich al-Islam, Ahrar al-Sham, jaich Muhammad, Liwa al-Tawhid, Liwa 'Shuhada' Badr, Liwa al-Mouhajirine, al-jabhat al-Islamiya, Jaich al-Fath, Liwa 'Sultan Murad o Partido islâmico do Turquestão União, e muitas outras organizações se comprometeram e ainda cometer crimes indiscritíveis. Imaginem que alguns membros do Conselho têm vindo a afirmar que a última organização mencionada,  a de um movimento no Turquestão, é uma oposição síria moderada!

Alguns criaram esses monstros canibais e amadores de selfies a decapitar as suas vítimas, estes monstros que balançam suas vítimas vivas a partir do cimo dos edifícios, os queimam em fornos de pão como em Adra ou os massacram por projeção cilindros de gás como em Aleppo, estes monstros que sequestram e aprisionam milhares de mulheres e crianças nas aldeias de Latakia, Hama e Homs ... São muitos os horrores que os sírios não vão perdoar. São muitos os crimes contra a humanidade. Não precisam de investigadores, provas ou cães de polícia a encontrar os autores. O criminoso é notório como os seus apoiantes.

O que permanece inexplicável e inaceitável é como é que é possível que alguns Estados-Membros deste respeitado Conselho sempre  se recusem a incluir alguns desses grupos na lista de organizações terroristas da ONU, e, em seguida,  afirmarem carregar a bandeira dos direitos humana e autoridade da lei? Como é ainda possível, que esses estados não compreendam plenamente que esta recusa permite que terroristas continuem seus crimes e decapitações e mostra a falta de seriedade de seus governos na luta contra o terrorismo, além de provar o seu uso do terrorismo como ferramenta política para pressionar o governo sírio?

Sr. Presidente,

O governo sírio assume a sua obrigação constitucional de proteger os seus cidadãos e combater o terrorismo, mas não podemos lutar sozinhos, a fim de minimizar o perigo para nós, para a região e para o mundo. É um perigo que começou a ameaçar os vossos estados e estou convencido, Sr. Presidente, que todos os cidadãos dos países que recentemente foram submersos  pela onda de terrorismo têm o direito de questionar as razões que levaram os seus líderes a ignorar a partida de concidadãos seus para a Síria exercerem o terrorismo, e antes de voltarem para a sua prática nos países de origem.

Combater o terrorismo e realizar as medidas coercivas unilaterais levam-me a falar sobre o próximo passo necessário para a resolução da crise humanitária, que não é outro senão o apoio a uma solução política, porque a luta contra o terrorismo vai aumentar as oportunidades de sucesso de uma tal solução, que é garantir a soberania da Síria, independência, unidade e segurança do território, em conformidade com todas as suas resoluções sobre a Síria.

O povo sírio  não aceitará ser transformado numa cópia do que aconteceu na Líbia, Iraque, Somália, Sudão, Afeganistão e outros países, especialmente porque esta vontade atende princípios do direito internacional, e que estes princípios não voltem a ser ultrapassados por alguns para repetir o que já infligiram ao Iraque, à Líbia e em outros lugares.

É com esta finalidade que o meu Governo tem seguido de perto as declarações consecutivas para a visita da secretária de Estado dos EUA a Moscovo em 10 de Julho, que garantiu o acordo de ambos os lados, americanos e russos, na luta contra o terrorismo, Daesh ea Frente al-Nusra.

A República Árabe Síria, que se encontra  na linha de frente contra esse mal mundia,l congratula-se com estas afirmações e, diz ao mesmo tempo, mais uma vez, que tem em vista uma solução política que irá satisfazer as aspirações do povo sírio e obter o seu consentimento, tal como está pronta para continuar o diálogo entre sírios, sem condições prévias, na esperança de que esta solução resulte dos próprios sírios, sem interferência estrangeira, mas com o apoio das Nações Unidas e da comunidade internacional.

Sr. Presidente,

Digo, mais uma vez, que o governo sírio está empenhada em cumprir as suas obrigações e em cumprir as suas responsabilidades, a fim de aliviar o fardo sobre o seu povo. Nesse sentido, estamos sempre prontos a tomar as disposições nacionais necessárias. E vamos continuar a nossa coordenação com as Nações Unidas que facilitará suas missões, sabendo que esta cooperação não é unilateral. Em troca, as Nações Unidas irão coordenar, cooperar e interagir connosco sobre todas as questões humanitárias, em vez de recorrer à suspeita  e crítica injustificadas

A ONU e outras organizações que trabalham na Síria nunca teriam conseguido ajudar milhões de sírios nos últimos cinco anos sem a ajuda, apoio e proteção do governo sírio. Nós vamos continuar a fazê-lo assim queissop constitua  benefício para todos os sírios em necessidade, como a distribuição de ajuda vai respeitar a soberania do Estado e vai concordar com os termos da resolução 46/182 que estabeleceu a OCHA [Escritório para a Coordenação de Assuntos Humanitários].

Sr. Presidente,

Antes de concluir, gostaria de lembrar o que foi dito pelo ex-ministro francês de Relações Exteriores, Fabius, Marrakech 12 de dezembro de 2012, quando com os amigos, procurou criar uma oposição síria: fazer o 'jihadistasfazem  bom trabalho "na Síria, enquanto o ex-primeiro-ministro francês à época, hoje  ministro das Relações Exteriores, disse:" Não posso fazer nada para impedir  os jihadistas franceses de irem para a Síria ". E agora que o "terrorismo jihadista francês" bateu o Bataclan, o Charlie Hebdo e  Nice, o presidente francês bombardeou uma aldeia perto Manbej e mata 164 civis!

Poderia citar muitos outros exemplos, mas respeito o tempo que me foi destinado e obrigado.

Nova intervenção no final da sessão, na sequência das conclusões do Sr. O'Brien [Secretário-Geral para os Assuntos Humanitários e Coordenador de Emergência]

Sr. Presidente,

Não demorarei, mas eu gostaria de compartilhar com os membros do Conselho não abordadas nesta sessão.

Primeiro: é lamentável que ninguém tenha  mencionado a façanha dos terroristas  em Wadi Araba, localidade na direcção de Madaya qiue muitos alegaram cercada pelo "regime".  Fizeram explodir a principal fonte de água potável que alimenta Damasco. Resultado: sete milhões de  civis sírios privadas de água potável em Damasco!

Segundo: em Raqqa, os terroristas do Daesh queimaram, na praça pública, três membros vivos de uma mesma família, porque tinham tentado fugir da cidade: o pai, a mãe e uma criança de dois anos de idade. Não ouvi o Sr. O'Brien falar sobre isso, também.

Terceiro: Em relação ao bombardeio de Aleppo, alguns falavam de Aleppo e Aleppo oeste dizendo que os ataques irromperam do leste e oeste, mas o Sr. O'Brien não estava naquele bombardeamentos a civis. Ele não nos disse quem são os terroristas contra quem a coligação internacional pretende  lutar. Não nos disse que eles são abastecidos pela Turquia e os regimes corruptos do Golfo: Arábia Saudita e Qatar. Esperamos que quando o Sr. Secretario-Geral adjunto voltará a lalar connosco sobre o que está acontecendo na Síria, ele precise quem são os que estão a bombardear os nossos civis deliberadamente.

Quarta: Hoje, mais de 100 vítimas, entre mortos e feridos em Damasco. Enviar-vos-ei os seus nomes por correspondência diplomática. Mulheres e crianças atingidas em Damasco e Aleppo em restaurantes e jardins públicos. Quem as bombardeou? Por que é que Sr. O'Brien não disse nada?

Obrigado, senhor presidente.

Dr. Bashar al-Jaafari

Enviado Permanente da Síria nas Nações Unidas

2016/07/25

Fonte: / Síria Video - Conselho de Segurança, reunião 7744

http://webtv.un.org/meetings-events/security-council/watch/syria-security-council-7744th-meeting/5049333063001

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Pokemon Go, o jogo que convida os espiões para nossa casa, por Sergey Kolyasnikov (@Zergulio)



O que se segue são respostas do autor a um blogue:



O programador do jogo: Niantic Labs. É uma start-up da Google. Os laços da Google com o Big Brothergle Streets. 
 

E agora, atenção! A Keyhole, Inc. foi patrocinada por uma empresa de capital de risco chamada In-Q-Tel , que é oficialmente uma fundação da CIA, criada em 1999.

As aplicações acima referidas resolvem desafios importantes:

Actualização do mapeamento da superfície do planeta, incluindo estradas, bases [militares] e assim por diante. Dantes estes mapas eram considerados estratégicos e confidenciais. Os mapas civis continham erros intencionais. 
Os robots nos veículos da Google Streets observam tudo por toda a parte, mapeando as nossas cidades, carros, caras...

Mas faltava resolver uma questão: como espiar dentro dos nossos lares, porões, avenidas com árvores, quartéis, gabinetes do governo e por aí em diante. 

Como resolver isso? O mesmo estabelecimento, Niantic Labs, divulgou um brinquedo genial que se propagou como um vírus, com a mais recente tecnologia da realidade virtual.

Uma vez descarregada a aplicação e dadas as permissões adequadas (para aceder a camara, microfone, giroscópio, GPS, dispositivos conectados, incluindo USB, etc.) o seu telefone começa logo a vibrar de imediato, informando-o da presença dos três primeiros pokemons! (Os três primeiros aparecem sempre de imediato e nas proximidades).

O jogo exige que você dispare para todos os lados, atribuindo-lhe prémios pelo êxito e ao mesmo tempo obtendo uma foto da sala onde está localizado, incluindo as coordenadas e o angulo do telefone.

Parabéns! Acaba de registar imagens do seu apartamento! Preciso explicar mais?

A propósito: ao instalar o jogo você concorda com os termos do mesmo. E não é coisa pouca. A Niantic adverte-o oficialmente:   "Nós cooperamos com agências do governo e companhias privadas. Podemos revelar qualquer informação a seu respeito ou dos seus filhos...". Mas quem é que lê isso?

E também  no parágrafo 6 do contrato:   "O nosso programa não permite a opção "Do not track" ("Não me espie") do seu navegador". Por outras palavras – espiam-no e vão continuar a espiá-o.

Além do mapeamento alegre e voluntário de tudo, outras oportunidades divertidas se apresentam.

Por exemplo: se alguém quiser saber o que está a ser feito no edifício, digamos, do Parlamento? Telefones  
são bem conhecidos, mas irei um pouco mais fundo. 


 A Niantic foi fundada por John Hanke, o qual fundou a Keyhole, Inc. – um projecto de mapeamento de superfícies cujos direitos foram comprados pela mesma Google e utilizados para criar o Google-Maps, o Google-Earth e o Goodúzias de deputados, pessoal da limpeza, jornalistas vibram: "Pikachu está próximo!!!" E os cidadãos contentes pegam nos smartphones, e  activarão câmaras, microfones, GPS, giroscópios...circulando no lugar, olhando para o écran e enviando o vídeo  online...

Bingo! O mundo mudou outra vez, o mundo está diferente. Bem vindo a uma nova era. 
 
18/Julho/2016

Nota – Cá entre nós, a PSP lançou um manual que ensina os jogadores a caçar os bonecos virtuais Pokémon em segurança e lembra que ainda se vive “no mundo real”. A Lusa fez disso notícia no dia 21 deste mês, entrevistando um graduado da PSP. E o jornal Publico disse que a “nostalgia apanhou” os pokemoners. Ambas as peças são claramente promocionais isentas de qualquer sentido crítico.


A versão em inglês deste artigo encontra-se em 
www.fort-russ.com/2016/07/pokemons-in-every-yard-every-military.html 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O efeito Sanders


O apoio de Bernie Sanders a Hillary Clinton corre o risco de levar para a abstenção nas eleições presidenciais de Novembro milhões de eleitores, muitos dos quais antigos abstencionistas que seguiram os propósitos de Sanders antes da conclusão das primárias do Partido Democrata. O apelo agora ao “voto útil” não funcionará para muitas pessoas que se redescobriram para a vida política com ele. Bernie Sanders quer deslocar toda a “esquerda” (conceito alargado em uso nos EUA) para o apoio a Hillary.

Poderia dizer-se que esse afluxo de esquerda iria determinar a política conduzida por uma administração democrata, e essa narrativa subentende-se nas palavras de Sanders, mas quem conhece o percurso de Hillary Clinton sabe que isso não será assim. Sabe que o que se pretende é vencer Trump e aproveitar para desorganizar essa “esquerda” que se estimulara com a candidatura de Sanders.
Sanders não teria outra saída que não apelar ao voto em Clinton? Esse é um dos dramas de um sistema eleitoral que concentra nos candidatos apurados pelos dois partidos que sustentam o sistema as escolhas possíveis, negando na prática a candidatos independentes o direito de beneficiarem dos meios.


Donald Trump tem a seu favor um populismo de direita e racismo contra os imigrantes (“eles, particularmente os latinos e agora os árabes fugidos das guerras, não querem trabalhar mas beneficiar da nossa segurança social”…). E disputa com Sanders o apoio dos desiludidos com décadas de uma alternância PR/PD que enfraqueceu os EUA, no que respeita à capacidade de gerar um crescimento económico e desenvolvimento e de criar emprego. A política interna que defende é bem pior que a de Hillary mas, talvez não surpreendentemente, na política externa é melhor. Desenvolveremos isso noutro artigo. Mas a defesa de boas relações com a Rússia e a China e a defesa duma maior efectividade na luta anti-terrorista não se encontram no programa eleitoral de Hillary. Pelo contrário.
O efeito Sanders, que gerou inicialmente um grande apoio no Partido Democrático, e que levou a que a direcção nacional do partido tudo tenha feito de forma irregular para o prejudicar em relação a Hillary (revelações de 2ª feira dos mails do Wikileaks), o que causou grande indignação, poderá ter-se desfeito horas depois com o apelo ao voto na convenção em Hillary.

Para onde irão os 13 milhões de votos que anteriormente tinham sido em  Sanders?

terça-feira, 26 de julho de 2016

"Principe", de Ana Hatherly




 
 
 
 
 
 
 
 
Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.

São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me

Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades"

A NATO – a maior ameaça à Europa


Nas suas últimas decisões A NATO coloca à beira do conflito nuclear uma série de países do leste europeu com cerca de uma centena de milhões de habitantes. A cabeça da NATO, os EUA, estará longe do local do conflito, uma vez mais na História, e despreza a vida de tantas pessoas inocentes!

Na cimeira de dias 8 e 9 em Varsóvia e nos maiores exercícios militares jamais realizados na Europa que começaram dias antes, várias foram as decisões graves, como foi referido por muitos comentadores como Eric Draitser (1). Particularmente grave é a expansão da presença militar da NATO, com bases permanentes e sistemas de escudos antimísseis (2) ao longo das fronteiras da Rússia, particularmente na Polónia e nos países bálticos, Estónia, Letónia e Lituânia, a partir de 1917, com fundamento numa suposta ameaça russa que já se teria verificado quando este país aceitou a integração em território da Federação Russa, da Crimeia, decidida esmagadoramente pela sua população em referendo, ou quando apoiou as populações russas do Donbass, fustigadas, como na Crimeia, pelas hordas fascistas que os EUA desencadearam ao apoiar o golpe na Ucrânia.

Os sistemas antimísseis incluem a presença de soldados norte-americanos e, “para não vexar” a população desses países a NATO até “se permite” haver uma rotação dos batalhões blindados e ser ela (e não os EUA) a terem o seu comando - o que é uma hipocrisia pois o comandante-geral da NATO é sempre um norte-americano.

Para quebrar qualquer interpretação positiva do retomar das reuniões do Conselho NATO/Rússia, um destroyer norte-americano equipado com um sistema para teleguiar mísseis, o USS Ross, equipado com o avançado sistema de defesa de mísseis Aegis, entrou para o Mar Negro neste sábado e dirigiu-se para o porto da cidade ucraniana de Odessa para se juntar aos exercícios marítimos internacionais Sea Breeze 2016.

A NATO conhece bem a posição da Rússia quanto a este acto provocatório. “Vamos destruir essas armas. A Rússia nunca mais voltará a lutar no seu próprio território”, afirmou no passado dia 13 ao Der Spiegel Sergei Kraganov, do Ministério dos Estrangeiros russo (2).

Putin não demorou a responder à provocação, dando indicações para que se procedesse a uma inspecção do estado de preparação para combate das forças russas e dos seus arsenais. O novo secretário-geral da NATO, M. Stoltenberg reagiu dizendo que não estão a provocar o regresso à “guerra fria” e que nenhum país membro da NATO se encontrava sob ameaça.

Porém a decisão foi tomada e a instalação na Polónia e na Roménia, desde já, de sistemas antimísseis não ficou sem resposta. Um arsenal russo foi instalado em Kalininegrado, enclave russo entre a Polónia e a Lituânia, habitado por 400 mil pessoas.

Porém, a NATO está a ficar claramente enfraquecida em matéria de opinião pública. E para isso também ajudou, antes e depois desta cimeira, que a NATO persista com uma narrativa relativa às intervenções no Iraque e no Afeganistão que omitem as tragédias que as populações desses dois países sofreram por elas se terem realizado. E que, uma vez mais, não tenha produzido uma reflexão sobre a falhada previsão de que o fim dos países socialistas do leste europeu iria acabar com as tensões internacionais e promoveria os direitos humanos, a paz e a prosperidade. Hoje é claro para a maioria dos que criaram tais expectativas que a NATO à solta foi uma máquina de guerra que países da Europa, do Médio Oriente e Norte de África pagaram bem caro.

A NATO foi criada em 1949, para corresponder militarmente ao Plano Marshall e mais tarde da CEE, para ser um instrumento de ameaça aos soviéticos e para os dissuadir de apoiar os comunistas ocidentais, saídos da guerra especialmente prestigiados pelo seu papel heróico, e por vezes decisivo, na libertação do nazi-fascismo. Tem procurado sempre ser, na prática, o braço armado da União Europeia. Face à agressividade da NATO os países socialistas criaram em 1955 o Pacto de Varsóvia e depois o Comecon, com semelhanças mas não tão coercivo quanto a CEE. Ambos os pactos militares fizeram sair da esfera da influência da Carta das Nações Unidas as suas forças armadas por aceitarem em ambos os pactos, colocar as suas tropas, na prática, sob o comando quer dos EUA quer da URSS.

Em 1998 a NATO conduziu a sua primeira guerra. E logo contra um país europeu e pequeno, depois do desmembrar sangrento da Jugoslávia, a Sérvia (tive a oportunidade de ter estado em Belgrado sob os bombardeamentos da NATO). Os EUA criaram a mafia terrorista kosovar e formaram-na na base turca de Incirlik, que agora teve um papel de relevo no golpe na Turquia da semana passada.

Sendo para a generalidade dos povos encarado como natural que a NATO pudesse ser extinta por ter sido extinto o Pacto de Varsóvia e “a ameaça soviética”, depois do 11 de Setembro de 2001, a NATO foi reabilitada para combater o terrorismo… (3) Porém, mais uma vez, nesta cimeira de Varsóvia a questão do terrorismo não mereceu mais que retórica. A firme coordenação internacional da luta contra o terrorismo, que passou a frequentar a Europa de forma intensa, ficou em “águas de bacalhau”.

Em 2011 a NATO coordenou a queda do regime líbio e o assassinato selvático de Mouamar El-Kadhafi (como já o fizera com Saddam Husein).

Em 2012 coordenou o lançamento das intervenções contra a Síria, a partir do Comando Aliado de Terra, em 2012, em Esmirna, também na Turquia. E se a NATO passou a actuar fora da Europa, logo foram integrados na Aliança outros países dessas bandas: Koweit, Qatar, Jordânia, Israel e Bahrein.

Nesta cimeira de Varsóvia, os EUA tiveram de ouvir as bocas do presidente francês que já referi no artigo anterior e a Inglaterra recusou-se a aumentar a sua participação financeira. Mas isso são peanuts relativamente ao que se exigiria aos dirigentes europeus para fazer parar a besta. Será desejável que o façam antes dela estar a andar.

Há meses atrás o Departamento de Estado para a Defesa reclamou a quadruplicação do orçamento destinado a financiar as já atrás referidas medidas de reforço da NATO (4), que actualmente. A administração dos EUA deseja que os parceiros da NATO reforcem as suas comparticipações, questão que mantem em análise. Actualmente, cada membro deve pagar 2% do seu PIB para adquirir armas que respeitem as normas da NATO…que só se encontram em fornecedores dos EUA!!!... As indústrias nacionais de armamento, entretanto, foram sendo postas de lado, por isso. Entretanto a Rússia já reconstitui e modernizou a sua indústria de armamento e a China está prestes a atingir os mesmos níveis de qualidade e fabrico. Os EUA e a NATO estão, gradualmente a ficar para trás.

As debilidades dos EUA que se estendem a diferentes sectores podem, porém, desencadear acções de graves consequências para a Humanidade.


Eric Draitser é o fundador do StopImperialism.org e comentador convidado da CounterPunch Radio. É um analista geopolítico independente, sediado na cidade de Nova Iorque e que pode ser contactado pelo mail ericdraitser@gmail.com.

(2)   O “antimíssil” pode ter uma leitura perversa, o de ser uma defesa contra mísseis. De facto, significa impedir a resposta com mísseis de um país a mísseis de longo alcance que já estejam no seu trajecto contra si, usando para instalar esses sistemas países mais próximos do alvo a atingir, a Rússia. A Rússia já fez saber que atingirá o atacante como os países de proximidade que a isso se prestem.


(4)   Nesta cimeira de Varsóvia a questão não mereceu mais que retórica e a firme coordenação internacional da luta contra o terrorismo, que passou a frequentar a Europa de forma intensa, ficou em “águas de bacalhau”. A NATO mostrou-se preocupada, sim, com a Coreia do Norte, a instalação pelo Pentágono na Africom. Não tratou da América Latina, reservada nestes areópagos, como coutada privativa dos EUA.

(5)   Le Monde de 17 de Junho de 2016.
 

(publicado em 25/7/16, em www.abrilabril.pt)

domingo, 24 de julho de 2016

"Verde que te quiero verde", de Garcia Lorca



Verde que te quiero verde. Verde viento. Verdes ramas. El barco sobre la mar y el caballo en la montaña. Con la sombra en la cintura ella sueña en su baranda, verde carne, pelo verde, con ojos de fría plata. Verde que te quiero verde. Bajo la luna gitana, las cosas la están mirando y ella no puede mirarlas.
Verde que te quiero verde. Grandes estrellas de escarcha, vienen con el pez de sombra que abre el camino del alba. La higuera frota su viento con la lija de sus ramas, y el monte, gato garduño, eriza sus pitas agrias. ¿Pero quién vendrá? ¿Y por dónde? Ella sigue en su baranda, verde carne, pelo verde, soñando en la mar amarga.
-Compadre, quiero cambiar mi caballo por su casa, mi montura por su espejo, mi cuchillo por su manta. Compadre, vengo sangrando, desde los puertos de Cabra. -Si yo pudiera, mocito, este trato se cerraba. Pero yo ya no soy yo, ni mi casa es ya mi casa. -Compadre, quiero morir, decentemente en mi cama. De acero, si puede ser, con las sábanas de holanda. ¿No ves la herida que tengo desde el pecho a la garganta? -Trescientas rosas morenas lleva tu pechera blanca. Tu sangre rezuma y huele alrededor de tu faja. Pero yo ya no soy yo, ni mi casa es ya mi casa. -Dejadme subir al menos hasta las altas barandas, ¡dejadme subir!, dejadme hasta las verdes barandas. Barandales de la luna por donde retumba el agua.
Ya suben los dos compadres hacia las altas barandas. Dejando un rastro de sangre. Dejando un rastro de lágrimas. Temblaban en los tejados farolillos de hojalata. Mil panderos de cristal herían la madrugada.
Verde que te quiero verde, verde viento, verdes ramas. Los dos compadres subieron. El largo viento dejaba en la boca un raro gusto de hiel, de menta y de albahaca. -¡Compadre! ¿Dónde está, dime? ¿Dónde está tu niña amarga? ¡Cuántas veces te esperó! ¡Cuántas veces te esperara, cara fresca, negro pelo, en esta verde baranda!
Sobre el rostro del aljibe se mecía la gitana. Verde carne, pelo verde, con ojos de fría plata. Un carámbano de luna la sostiene sobre el agua. La noche se puso íntima como una pequeña plaza. Guardias civiles borrachos en la puerta golpeaban. Verde que te quiero verde, verde viento, verdes ramas. El barco sobre la mar. Y el caballo en la montaña.
Pero yo ya no soy yo, ni mi casa es ya mi casa dejadme subir al menos hasta las altas barandas.
Compadre, quiero morir, decentemente en mi cama. De acero, si puede ser, con las sábanas de holanda.
Compadre donde está dime, donde está esa niña amarga cuantas veces la esperé cuantas veces la esperaba.


Poema original de Federico García Lorca 'Romance sonámbulo' (1928)



  • António Abreu
  • sexta-feira, 22 de julho de 2016

    Frase de fim de semana, por Jorge


    "[O totalitarismo democrático] é um processo
    de pensamento minguante ... com um objetivo claro:
    não ser sequer possível pensar
    que é possível pensar uma sociedade outra."
     
     
     
    Manuel Augusto Araújo
    arquiteto e crítico, n.1944
    em editorial do "A Voz do Operário"
    de julho/agosto 2016

    Ainda sobre o golpe falhado na Turquia


    Com o fracasso do golpe e o apoio popular que foi muito importante para esse desfecho, Erdogan sai reforçado internamente, sendo de esperar:

    O acentuar da divisão da Turquia em duas partes parecendo seguro, apesar do reforço, nestas circunstâncias, do poder de Erdogan, que a prazo isso provoque maiores convulsões na Turquia e isto apesar da unanimidade dos partidos políticos, aliados do AKP ou partidos da oposição, em condenar o golpe (1);

    Reforço do poder pessoal de Erdogan e do seu partido, o AKP, acentuar do culto da sua personalidade e do conservadorismo do regime bem como do islamismo a todos os níveis;

    Uma das maiores purgas da História contemporânea. Milhares de juízes (incluindo do Supremo) foram sumariamente irradiados da magistratura turca por terem "eventualmente” apoiado o golpe militar e contra eles foram passados mandatos de captura. O mesmo se passou com militares, polícias, professores e outros funcionários públicos;

    O reforço do poder por parte de Erdogan levará, seguramente, ao retomar do projecto de presidencialização do regime através de alterações da constituição;.

    Com apoio na declaração do “estado de emergência”, o governo terá mão  pesada contra os golpistas com muitas dezenas de altos quadros das forças armadas detidos e, na sequência das ameaças quanto ao futuro desses militares surge um movimento de opinião para recuperar a pena de morte, abolida há 12 anos atrás, e que Erdogan acha ser de considerar face ao golpe falhado.;

    A ruptura com a tradição de forças armadas que ao longo de décadas, desde Ataturk, eram o pilar da secularização do regime. Já há 3 anos Erdogan retirou às Forças Armadas, alterando o Art.º 35º do seu Regulamento, o papel de defesa interna da república, atribuindo-lhe apenas a defesa contra as ameaças externas;

    Que o conjunto das pessoas presas não pare de aumentar, incluindo militares, polícias, juízes e outros funcionários públicos.

    A aparente facilidade da derrota do golpe militar terá ficado a dever-se a uma antecipação precipitada. Erdogan já tinha informação dos seus serviços de informação e, provavelmente, dos de outros países da preparação do golpe. E os golpistas sabiam disso pelo que, para não serem presos em pijama, decidiram fazer essa antecipação.

    Entretanto o governo, através do Ministro do Trabalho denunciou perante as câmaras de televisão que os EUA estiveram por detrás do golpe.

    O Ministro dos Negócios Estrangeiros, referindo-se à base de Incirlik, no sudeste do país, usada pelos EUA para o ataque ao Daesh na Síria, disse que os militares turcos que aí trabalhavam tinham sido atraídos para o golpe mas que, após a regularização da situação, “vamos continuar a nossa luta contra o Daesh, quer com as nações da coligação, ou no âmbito da NATO”. Não sendo de esperar que essa acção decorra antes de os EUA responderem ao pedido de extradição de Gulen.

    O responsável do movimento Gulen, residente nos EUA, o imã Fethullah Gulen, é considerado por Erdogan como o inspirador do golpe, apesar de ele o ter negado e considerar o golpe como montado pelo próprio Erdogan. Gulen dirige uma vasta rede de escolas e instituições humanitárias na Turquia e em vários países, direccionadas para os turcos. A Turquia prepara acusações sobre actividades a enviar para os EUA que justifiquem, segundo John Kerry, a consideração da sua extradição. Erdogan, desde que rompeu com Gulen, acusou-o de organizar um “estado paralelo” com a intenção de o derrubar, e que era esse estado que estava a funcionar nas vésperas do golpe.

    Já estava em curso mas é de prever o acentuar de uma política externa turca virada para outros quadrantes, podendo posicionar-se como polo estratégico em relação a um razoável número de países, que ultrapasse as estritas motivações da NATO, que, aliás, não veio em apoio do governo legitimado nas urnas que enfrentou um golpe militar. A vocação eurasiática da Turquia poderia acentuar-se.

    Erdogan pretende tirar o país da crise resultante das grandes quebras de exportações de têxteis desde 2008, transformando o país numa encruzilhada (hub) do fornecimento de gás e petróleo à Europa (2).

    Erdogan já estava a realizar, antes do golpe, negociações com a Síria, prometendo abandonar o projecto de derrubar o regime e Assad, motivado pela contenção dos curdos, do Irão e da Rússia. Não por acaso, o governo sírio expressou o seu apoio à “valente defesa da democracia” que foi a derrota do golpe na Turquia. Pode ser que as relações entre os dois países melhorem mas a Turquia, que já sofreugraves atentados do Daesh, deverá rever a sua atitude de cooperação com este e outros grupos terroristas na região.

    Idêntica rejeição do golpe teve o Irão, o primeiro país a fazê-lo, ao contrário da Arábia Saudita e o Qatar que foram vendo para que ladocaíam as coisas. Com esta atitude, o Irão propõe-se ser o principal aliado de Ancara, no período pós-golpe.

    O governo russo tem interesses que o levarão a cooperar mais com a Turquia. Para além da participação nos projectos energéticos da Turquia, os russos têm interesse em que a sua frota do Mar Negro possa voltar a ter acesso ao Mediterrâneo e a soberania da Turquia sobre o Bósforo é decisiva para isso.

    As relações entre o governo turco e o russo têm evoluído favoravelmente, depois do abate pela Turquia de um caça russo e das desculpas apresentadas por Erdogan. Principalmente na área da energia, que veio compensar as quebras no comércio têxtil da Turquia. O gasoduto SouthStream no Mar Negro foi desviado da Bulgária para a Turquia, como forma de tornear as regulamentações da UE contra o monopólio da Gazprom. E os russos querem estender a cooperação energética à área da energia nuclear.

    A Rússia tem interesse em ver reduzidas as sanções que tem sofrido por causa Ucrânia. E até na cimeira da NATO em Varsóvia, Hollande em tom vigoroso afirmou que “à NATO não cabe ter qualquer papel em como devem ser as relações entre a Europa e a Rússia. Para a França a Rússia não é adversária, não é ameaça”. Essa afirmação, para além de objectivos domésticos, terá sido feita com a consciência de que um novo eixo transatlântico se tem vindo a definir entre os EUA e a Alemanha já que os EUA tudo farão para conjurar um eixo entre a Alemanha e a Rússia.

    O Brexit, que continuará a ter consequências, contribuiu para que o governo turco se desinteresse da UE por não ganhar nada com isso. Por outro lado, as relações ambivalentes da Turquia com a UE e os EUA abrem a perspectiva da Turquia, em vez de continuar a ser um mero peão da NATO, fazer um acerto na sua política externa com vista a contribuir, com um peso próprio, para um mundo multipolar.

    (1)   Entre eles o Partido Comunista da Turquia que em cima dos acontecimentos sublinhou: “A tensão e as rivalidades entre diferentes grupos no seio do Estado e das Forças Armadas, que sabíamos existirem, numa dada altura tomaram a forma de um conflito armado. Se a tensão entre essas forças é real, não é verdade que qualquer um desses grupos represente os interesses do povo. Procurar a solução contra o governo do AKP através de um golpe militar, é um erro, como errado será dar qualquer apoio ao AKP com a desculpa de tomar posição contra o golpe militar”.

    (2)   Nesse sentido há acordos assinados pela Turquia com a Rússia e o Irão. Tem ainda a possibilidade de retomar com o Azerbeijão o projecto B-T-C (Baku-Tbilisi, Ceilão) para o escoamento do gás deste país. Também poderá participar com a Arábia Saudita e o Qatar no transporte do gás de Pars, no Qatar. Todos estes projectos passam pela província da Anatólia Oriental, de maioria curda e forte influência do PKK. Sendo por isso de prever o acordos com o PKK que, por outro lado, possam contribuir para atenuar o projecto de formação de um Grande Curdistão, projecto alimentado pela França e outras potências europeias e pelos EUA para enfraquecerem vários países e consolidarem a sua liderança na região.
    (publicado originalmente em 22/7/16 em www.abrilabril.pt)

    quinta-feira, 21 de julho de 2016

    A França está a intervir militarmente na Líbia


    Na semana passada a França teve de reconhecer que estava a operar militarmente na Líbia quando três militares seus morreram na queda de um helicóptero. O governo francês falou de uma missão de espionagem muito perigosa que tinha sofrido um acidente. Porém, o ataque foi reivindicado pelas Brigadas de Defesa de Benghazi, milícia islamita próxima da Al-Qaeda.

     
    O míssil terra-ar SA-7 e as armas automáticas usadas pelos jihadistas tinham sido roubadas às forças do general Haftar, antigo general de Kadhafi, agora apoiado pela França, e homem forte da zona oriental do país que se opõe ao governo de Tripoli aí colocado pelos países da NATO. Esses países – os EUA, a Inglaterra , a Itália e a Espanha – cooperam com a França numa zona que será de coutada sua e que inclui a Mauritânia, o Mali, a Nigéria, o Chade e o Burkina Faso (operação “Barkhane”).

    A ONU expressou as suas preocupações com a conquista de Sirte pelo Estado Islâmico, onde estarão entre 2 e 5 mil jihadistas.

    A França, que em 2011 estava na linha da frente da intervenção militar da NATO para derrubar Kadhafi, está confrontada com um país que se transformou um grande mercado de armas, muito abrangente e poderoso como revelou a capacidade de fogo de rebeldes e jihadistas do Mali. Obama classificou essa operação da NATO “como o seu maior erro em termos de política externa” e o Ministro dos Estrangeiros russo, Lavrov, referiu que a violação do mandato do Conselho de Segurança sobre a zona de exclusão aérea poderia ter como consequência que a morte de Kadhafi pudesse ser julgada como “crime de guerra”, tanto mais que um conselheiro especial junto da Presidência da República Francesa, Robert Dulas, confirmou que Kadhafi já tinha aceitado deixar o poder antes da intervenção.